Alçado à condição de promessa ao vencer o Grande Prémio do Júri de Sundance, em 2013, com “Fruitvale Station”, laureado também em Cannes com o Prix Avenir, Ryan Coogler capitalizou a sua inquietude criativa (vitaminada por muita destreza técnica) num trânsito pela seara dos filmes de autor que comunicam – e bem – com as massas. Provou competência para filmar estrelas ao revitalizar Rocky Balboa em “Creed” (2015), sem abandonar a linha de afirmação decolonial que trouxe da sua longa-metragem de estreia (supracitada). Michael B. Jordan é a costura pop dessa linha, numa configuração de ator-fetiche digna da relação Scorsese + DiCaprio + De Niro ou Spike Lee + Denzel Washington ou Kelly Reichardt + Michelle Williams + John Magaro. O seu lugar de pensador das potencialidades das populações negras, numa fricção contra o racismo, carimbou o seu passaporte para a Marvel em “Black Panther” (2018), ímã de milhões que redefiniu os arquétipos heroicos e redesenhou o simbolismo político do vigilantismo das BDs. Apesar de “Wakanda Forever” (2022) ter sido um passo atrás em múltiplas frentes, a rentabilidade dessa parte II da mitologia do super-herói afrofuturista foi alta e a fita valeu uma nomeação ao Oscar para Angela Bassett. Chegou a hora de um novo (e ousado) tráfego na sua trajetória artística, numa reta que singulariza cineastas, na relação com a autoralidade: a construção de um universo dramatúrgico particular, com dinâmicas de enredo e personagens próprias. “Pecadores” (“Sinners”), escrito e realizado por ele a um custo bem aquém (US$ 90 milhões) dos orçamentos de filmes de mascarados da Disney, funda uma mitologia particular, mesmo partindo do módulo dos filmes de vampiros. B. Jordan segue pela jugular.
Há que se diga que, historicamente, a pedra fundamental do império Marvel nos cinemas foi o filme de um vampiro negro antirracista, “Blade” (1998), com Wesley Snipes. Até ele surgir, tudo que se derivou da editora só foi bem sucedido na TV, como os desenhos do Príncipe Submarino Namor dos anos 1960, com a série do Hulk, com Bill Bixby e Lou Ferrigno. No grande ecrã, nada teve êxito. Wesley Snipes teve. Abriu espaço para duas continuações do seu Daywalker (a segunda com Guillermo Del Toro no comando dos sets) e fomentou o interesse de estúdios como a Fox e a Sony em filmar os X-Men e o Homem-Aranha.
Coogler era adolescente no meio dessa euforia de vigilantes uniformizados e viu Snipes brilhar entre eles, a alimentar a hipótese de o povo negro protagonizar superproduções que antes só comportavam brancos, num ataque da cultura ao ranço colonial de séculos. Em paralelo, a mesma operação tomou conta do cinema de terror, com a consagração de Jordan Peele em “Get Out” (2017) e “Us” (2019), numa junção das mecânicas horroríficas com os fantasmas do preconceito.
Ao mesclar proficiências de aventuras heroicas com sintagmas do horror, “Pecadores” firmou-se como o melhor desses dois mundos, com a proposição de uma nova abordagem para a figura do bebedor de sangue, similar a que Don Siegel fez com alienígenas em “Invasion of the Body Snatchers” (1956). A paranoia é um elemento essencial ao novo Coogler, que apresenta uma linhagem de vampiros sem o charme do Drácula (nem a opulência do Conde Orlok do genial “Nosferatu”, de Robert Eggers, lançado no Natal de 2024. As criaturas que cercam B. Jordan duplamente (pois encarna dois papéis, os gémeos Smoke e Stack)movem-se (e sentem fome) como zombis. O seu líder, Remick (Jack O’Connell), não tem o lirismo de Bram Stoker. Só o Mal.
Numa evocação a signos religiosos d’África, a começar da palavra “axé”, num indicativo da abertura de caminhos, Coogler subverte um jogo teórico, adotado há cerca de 120 anos por Hollywood, e denunciado por teóricos como o jamaicano Stuart Hall. Este pesquisador, autor de “Identidades Culturais na Pós-Modernidade”, fala em “performatividade” da exclusão do capital. Segundo Hall, “em termos de colonialismo, subdesenvolvimento, pobreza e racismo, foi a presença europeia que, na representação visual, colocou o sujeito negro dentro dos seus regimes dominantes de representação: o discurso colonial, as literaturas de aventura e exploração, a sedução do exótico, o olhar etnográfico e viajante, as linguagens tropicais do turismo, das brochuras de viagens, os filmes hollywoodianos e as linguagens violentas e pornográficas da ganja e da violência urbana”. O que o cineasta por trás de “Black Panther” faz é dialogar com cada elemento desses acima citados, a libertá-los dos simulacros que seus pastiches criaram.
Logo de caras, nota-se que os irmãos Smoke e Stack lidam bem com a opção do mundo de gangsters que abraçaram depois de uma passagem pelas trincheiras do Velho Mundo, numa alusão à I Guerra. Chegam a Clarksdale, no Mississippi, sem jamais aceitarem o posto de “colonizados”, de arma em punho. Almejam abrir uma casa de espetáculos regada a blues e uísque em tempos da Lei Seca. Trazem um velho às do piano, Delta (Delroy Lindo, nas raias da excelência), para trazer a garantia de acordes gingados e aproveitam a maestria do seu jovem primo, Sammie (o ótimo Miles Caton), na guitarra, a fim de assegurar um arrasta-pé dos mais quentes no recém-aberto estabelecimento. Na noite inaugural, a namorada de outrora de Stack, Mary (Hailee Steinfeld), aprochega-se ao negócio, assim como o grande amor da vida de Smoke, Annie (Wunmi Mosaku), que domina conhecimentos acerca dos feitiços de ancestrais africanos.
O cenário é de farra e de bons negócios, mesmo com a Ku-Klux-Klan a espreitar os bros (bem) interpretados por B. Jordan. No entanto, a habilidade de Sammie em evocar manifestações espirituais, do Ontem e do Amanhã, no dedilhar das suas cordas, desperta o apetite de Remmick e dos seus acólitos. O enredo faz lembrar “From Dusk Till Dawn” (1996), de Robert Rodriguez, que também decorria num saloon repleto de hordas vampíricas, também pautava a exclusão (dos latinos) e também falava de ancestralidade (ao mostrar uma pirâmide de povos originários do México). Rodriguez também singularizava os seus cainitas (Filhos de Caim, termo usado pelo escrito Mark Rein-Hagen para falar de vampiros). Eles eram monstros com presas e escamas, meio esverdeados, meio amarronzados. Até a femme fatale encarnada por Salma Hayek tinha esse aspeto.
Os “monstros” de Coogler são mais hominídeos. Cantam canções populares da Irlanda numa ilustração de uma cultura que veio de um continente em decadência, autodenominado de centro da Terra, que começa a perder a sua hegemonia nas guerras da Era dos Extremos. Só não perdem na insistência em agrilhoar as pessoas negras. É contra eles que as personagens de B. Jordan se insurgem, num oceano de reviravoltas regadas a sangue que colocam em discussão o que seria o conceito de “pecador”. Seria o termo ideal para as pessoas que se abraçam ao prazer ou estaria essa palavra mais próxima de figuras que se abraçaram aos seus instintos como forma de garantir um espaço de poder?
No “Blade” do fim dos anos 1990, os vampiros cansaram-se de ver a Humanidade reinar sobre o planeta e ensaiaram um levante. Os vampiros de Coogler pensam de forma semelhante. Só não parecem organizados em castas hierarquizadas como se via no filme de culto com Wesley Snipes. Eles soam tão desgraçados e decadentes como os racistas que segregam os amores e os amigos de Smoke e Stack, institucionalizando o ódio com a política da morte. Metáfora mais prefeita não há.

A luz bruxuleante adotada pela diretora de fotografia Autumn Durald Arkapaw amplia o tom sombrio de um thriller cuja ferocidade cresce sequência após sequência na montagem febril de Michael P. Shawver, montador assinatura de Coogler. Num elenco equilibrado, no qual Wunmi Mosaku assalta os holofotes para si numa figura feminina empoderada, merece destaque a presença do poeta, músico e ativista Saul Williams no papel do pastor Jedidiah.
p.s.: Há sequências pós-créditos que mudam radicalmente as nossas convicções acercam do conceito de heroísmo e de resiliência.



















