Da mesma forma como fez em El Cordero (2014), numa linha autoral, Juan Francisco Olea guia a ciranda afetiva de Oro Amargo pelas vias da catástrofe. Pauta-se por um incidente que modifica por completo o panorama de escolhas a serem tomadas pelas personagens centrais. O fator catastrófico da sua dramaturgia envolve a morte. Com ela, deflagra-se o risco, não só o de novas execuções, mas o de uma desaparição gradual de uma dinâmica de mundo pautada por zonas de conforto e pactos de subserviência. Na sua longa-metragem anterior, reinava uma estrutura comezinha de classe média, na qual a segurança individual (jamais a coletiva) passava, em primeiro lugar, por amortecedores financeiros. No seu novo exercício de realização, de maior ambição sociológica, existem pedras, há dinamite e há a histórica gold fever que enlouquece mineiros desde que os territórios da Pangeia latina se tornaram jazidas a céu aberto.

Pautado por uma habilidosa direção de fotografia assinada por Sergio Armstrong, a coprodução entre Chile e Uruguai, com aporte alemão, fia-se na rigidez dos seus enquadramentos, a partir do qual garimpam-se emoções na alma da jovem Carola (Katalina Sánchez). Na sua sinopse para o Bergamo Film Meeting fala-se em western como se estivéssemos diante de um faroeste dos anos 2020, com ecos de Johnny Guitar(1954) e algo de Pale Rider (1985). No entanto, a imersão nos planos que acompanham o amadurecimento (a fórceps) de Carola, revela um painel geográfico (e existencial) mais próximo do “Greed (1928), de Erich von Stroheim (1885-1957). A América (hispânica) que está ali não é um espaço de desbravamento, de conquista. É, pelo contrário, a arena para uma disputa de cobiças, que nenhuma picareta racha. Tudo adoece.

Numa precisão de fazer inveja aos relógios helvéticos, Olea capta o desabrochar de Carola, na flor dos 16 anos. As pétalas que se abrem ao redor da sua corola embrutecida não carregam o desejo inerente às bombas hormonais da adolescência. O que aflora é a carapaça sentimental de que ela precisará para sobreviver num deserto de Atacama suarento, envolto em poeira e fragrância de pólvora, na qual o seu único istmo com a península da brandura familiar é o pai, Pacífico (Francisco Melo, em irretocável atuação).

Dia após dia, eles sobrevivem da extração do cobre, cientes da existência de um veio aurífero a ser garimpado em sigilo. Toda discrição é pouca num ambiente de aridez extrema, no qual os homens beberam a pouca hombridade que tinham e embriagaram a própria dignidade em prol de enriquecimento instantâneo. Tudo era duro e seco ali, mas onde deveria haver uma mina brota uma cova em potencial no momento em que um dos funcionários do empreendimento, alcoolizado, decide desafiar a liderança de Pacífico, armado e cheio de ódio no olhar. Ali começa um rol de traições, com uma ferida aberta na carne de Pacífico, que força Carola a encarar um mundo de brutos.

Se cabe alguma delicadeza neste 3×4 do Inferno batido por Olea, ela está na fina montagem (a seis mãos) de Valeria Hernández, María José Salazar e Sebastián Brahm, que mantêm a pressão em fervura máxima ao longo de toda a narrativa. A edição fervente esmiúça, detalhe a detalhe, a conversão de uma menina numa valquíria. Katalina Sánchez esbanja maturidade ao encarnar o calvário dessa protagonista que cresce sob o vetor do desamparo e do machismo.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira Rosa
oro-amargo-garimpa-as-minas-do-atacamaSe cabe alguma delicadeza neste 3x4 do Inferno batido por Olea, ela está na fina montagem (a seis mãos) de Valeria Hernández, María José Salazar e Sebastián Brahm, que mantêm a pressão em fervura máxima ao longo de toda a narrativa