“Dear Beautiful Beloved”, documentário do realizador ucraniano Juri Rechinsky, estreado em Locarno e agora na competição Visti da Vicino (Close-up) do Bergamo Film Meeting. começa na forma de um verdadeiro thriller. Uma mulher e um homem, Elizabeth e Johnny, da British Expeditionary Aid & Rescue, entram por habitações a dentro e retiram idosos e pessoas acamadas em locais onde a guerra está prestes a entrar com a sua artilharia. Nesse momento, a engenharia de som, acentua o clima de tensão e prepara-nos para o que se segue: um olhar que segue o teatro de operações da evacuação, longe dos combates bélicos, mas próximo da destruição, daqueles que à partida, mesmo sem um conflito em ação, são socialmente mais frágeis: idosos e doentes, muitos dos quais vivem sozinhos.
Essa evacuação de aldeias, vilas e cidades perto da linha da frente na Ucrânia segue depois caminho para uma estação de comboio que os vai conduzir para um espaço seguro onde possam ser tratados e acompanhados. Nas interações que o cineasta encontra pelo caminho, conhecemos outras pessoas que procuram elas também a fuga via férrea. E seguimos a vida dos condutores de ambulâncias, de paramédicos e muitos outros que vasculham os destroços de edifícios à procura de vítimas e dos seus pertences. “Está aqui um crânio”, ouve-se a certo momento, levando-nos para o drama profundo de arrepios na espinha perante vítimas mais extremas de uma guerra eufemisticamente tratada pela Rússia como “Operação Especial”.
Os corpos recolhidos são separados, limpos e categorizados, colocados em sacos mortuários e entregues a um casal, Oleksandr Nagayets e Daria Semenchenko, que tratam do resto. Nesse aspeto, “Dear Beautiful Beloved” vai até um pouco mais longe que o recente documentário de Victor Mansky, “Time To Die”, pois além de mostrar feridos e mortos enterrados em cemitérios, arrisca-se a acompanhar o trabalho nas morgues improvisadas para caracterizar o melhor que se consegue os falecidos na preparação para o enterro. E vemos, numa das cenas mais dolorosas e eticamente complexa, uma mãe e uma família a chorar pelo corpo do filho, num momento íntimo que dá extrema força ao filme e à realidade de uma guerra (em que as vítimas não são números, mas pessoas reais). Porém, e simultaneamente, tudo isto pode soar a “pornografia da desgraça” ou mesmo da miséria. Já antes, num outro momento dramático, assistimos também a uma mulher a sofrer uma paragem cardiorespiratória e as tentativas da sua reanimação. Legítimo ou exploratório, fica ao critério de cada um, mas o cineasta optou efetivamente por mostrar essas imagens, não certamente com o intuito de chocar pelo chocar, mas deliberadamente para perturbar e mostrar mais vincadamente o que é, efetivamente, a guerra e quem são as suas vítimas.
Deixando as imagens, monólogos e diálogos falarem por si, evitando qualquer tipo de narração, num estilo claro de cinema direto observacional, que se “escreve” na montagem e que mostra uma faceta de solidariedade no meio de uma humanidade em rota de destruição, o filme consegue ao mesmo tempo nos dar uma imagem de serialização do transporte de cargas humanas em busca de salvação do que remanesce de uma civilização em risco.





















