Nas sociedades ocidentais, o mundo da hotelaria e do turismo em geral, quer se queira, quer não, é totalmente dependente dos migrantes para funcionar. E quando falamos em migrantes, necessariamente não falamos daqueles que vêm de outros países, como se viu por exemplo no filme “Animal”, onde uma mulher do norte da Grécia sazonalmente viaja para o sul para trabalhar na indústria do turismo. Em Portugal, o caso não é diferente e, ainda recentemente, números apontam que dos 720 mil os trabalhadores imigrantes que estão registados na segurança social, uma bela fatia, de quase 115 mil, trabalhavam nesse sector. Em Itália, um quarto da força de trabalho do turismo é de origem estrangeira, duas vezes e meia a taxa de participação dos cidadãos estrangeiros no mercado de trabalho nacional.
Esta pequena introdução serve para contextualizar o que assistimos em “Personale”, documentário de Carmen Trocker na competição Visti da Vicino (Close-up) do Bergamo Film Meeting, que acompanha na forma de cinema direto os bastidores do trabalho de proporcionar férias de luxo num hotel nas Dolomitas alpinas. E se a maioria dos que pernoitam nesses hotéis encontram neles o conforto do escape às suas vidas rotineiras, as vidas de quem trabalha aí são cheias das mais profundas rotinas, seja a lavar, secar e dobrar toalhas, desfazer e fazer camas, limpar casas de banho e deixar tudo limpo com precisão para que os hóspedes possam usufruir do luxo na sua permanência.
Carmen Trocker foca a sua atenção numa equipa maioritariamente feminina que encontra nestes bastidores, ouvindo pequenas conversas aqui e ali, muitas delas em forma de queixas que revelam exaustão, a falta de pessoal, e as histórias de quem trabalha vinda deste ou daquele país, em guerra ou não. Atravessamos assim, qual mosca, por um grupo de pessoas que vão da Ucrânia à Roménia, passando pelo Mali e Líbia, entre outros, seguindo as dinâmicas do trabalho, a camaradagem e a convivência, muitas vezes difícil, num ambiente onde as más notícias chegam rápido e causam impacto (numa cena, as trabalhadoras abordam uma violação que ocorreu nas imediações). E tal como nenhum hóspede é visado pela realizadora, a presença da beleza da paisagem das Dolomitas ou dos espaços mais luxuosos do hotel também são reduzidos aos mínimo ou ocultados, passando o espectador mais tempo na lavanderia ou nos quartos que estão a ser limpos, à medida que um filme se constrói com a rotineira banalidade do dia a dia num mundo onde a turistificação é só mais uma das facetas de um capitalismo desenfreado.
É na riqueza dos diálogos, em línguas diferentes consoante os intervenientes, e uma espécie de “pausas” em que a cineasta filma pequenos objetos (uma chávena de café suja, um pacote de açúcar rasgado, um pedaço de papel escrito e amachucado, um brinco), que “Personale” encontra o seu núcleo de existência: o de mostrar todos aqueles que permanecem invisíveis nas nossas estadias em hotéis e dos quais apenas sabemos que existem pela limpeza dos quartos. E por isso mesmo, a cineasta usa como frase final uma citação de Ralph Ellison, de 1952, em “Invisible Man”: “Eu sou invisível, entenda, simplesmente porque as pessoas se recusam a ver-me.”



















