Artista e cineasta radicado em Roma, originário de Mindanao, nas Filipinas, Liryc Dela Cruz tem investido tempo e atenção na investigação das suas origens, analisando a psicologia social do povo filipino marcado pela colonização e uma migração forçada em busca da sobrevivência. Essa investigação artística teve a sua primeira manifestação cinematográfica, na forma de uma longa-metragem, com este “Come la notte” (Where the Night Stands Still), apresentado na seção Perspectives da 75ª Berlinale, mas esse seu foco começara bem antes, na instalação artística que misturava vídeo e performance “Il Mio Filippino: For Those Who Care To See”.

Construído a partir de um preto e branco hipnótico, com uma economia de três dezenas de planos estáticos onde a profundidade de campo, as sombras e a luz não só exemplificam como estética é narrativa, mas criam uma sensação de incómodo e de um mistério nervoso perante uma aparente luxuosidade da locação, “Come la notte é uma perseguição aos fantasmas do passado a partir do reencontro entre 3 irmãos, todos exilados em Itália, quando uma das personagens, Lila (Tess Magallanes), para sua grande surpresa, herda uma enorme mansão da patroa falecida, com quem trabalhou mais de 35 anos.

Nas primeiras imagens a que temos acesso, Dela Cruz mostra a velha mulher em limpezas profundas a um espaço que impõe a sua grandiosidade e conforto, parando depois a tarefa quando os dois irmãos, Rosa (Jenny Llanto Caringal) e Manny (Benjamin Vasquez Barcellano Jr), chegam ao local, vindos de Roma, para visitá-la pela primeira vez em anos.

O que se segue são conversas que revelam desconforto dos irmãos mais novos em relação a Lila, que com o paternalismo tóxico que a caracterizou nas decisões de vida que impôs aos mais novos, vai levantar a poeira do tempo e os ressentimentos familiares. Questionando a verdadeira relação que Lila tinha com a antiga patroa, e amaldiçoando mesmo a sorte dela em ser premiada com a mansão, a dupla divide-se em opiniões sobre a sua condição na atualidade. Rosa exaspera pela razão porque Lila não vende a mansão e volta às Filipinas para viver com o seu clã, enquanto Manny queixa-se da forma de vida que a irmã lhe impôs no passado e que o transformou num ator laboral sempre preparado para servir alguém, dando claro de indícios de uma dependência económica que se criou na forma de uma escravatura moderna. De forma não explícita e indireta, Liryc Dela Cruz aborda assim a sensação de deslocamento característica nas sociedades pós-coloniais banhadas por migrações em massa, revelando vazios e dores internas capazes de explodir em qualquer instante.

Filmado num espaço onde a grandiosidade, silêncio e isolamento refletem conforto e perpetuam uma calma das palavras não ditas, “Come la notte atira-se rapidamente para o contraste do material com o imaterial, latente pelo turbulento rol de sensações e pensamentos que preenchem o interior das personagens, recalcadas pelas suas histórias e passado. Nisto, Dela Cruz não só carrega a própria mansão em si com o peso do passado, mas transforma-a numa peça essencial de um xadrez existencial de uma família há muito fragmentada de forma irremediável.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
come-la-notte-o-inabalavel-peso-do-passadoLiryc Dela Cruz aborda assim a sensação de deslocamento característica nas sociedades pós-coloniais banhadas por migrações em massa, revelando vazios e dores internas capazes de explodir em qualquer instante.