Facilmente uma das atrizes que arrisca mais nos papéis que desempenha no cinema, veja-se “Rainha de Copas”, “A Rapariga da Agulha”, “Poison” e até “Erna at War”, a dinamarquesa Trine Dyrholm, que há 27 anos já era uma das chaves de um filme-choque chamado “A Festa”, volta a aceitar um daqueles papéis que definem carreiras, desta vez como uma mulher casada e com dois filhos que, depois de sofrer um acidente vascular cerebral, fica parcialmente com o corpo incapacitado para trabalhar ou cuidar de si própria.
Se acrescentarmos a isso que essa sua nova condição vai adiar a separação do marido que já estava programada, então ficamos com a noção que “Beginnings”, um pequeno drama familiar de Jeanette Nordahl, é um novo tour de force de uma atriz de exceção.
Mas os grandes elogios ao filme ficam mesmo por aqui, na atuação e entrega de Dyrholm, num pequeno drama onde Jeanette Nordahl, a realizadora, embora coloque alguns dilemas morais em cima da mesa, acaba por sucumbir ao convencional, quer na história familiar e desenrolar dos eventos, quer na utilização das ferramentas cinematográficas (realização) que tem ao seu dispor.
É que, ao contrário de Ane, a personagem masculina em ação, Thomas (David Dencik, irregular), nunca parece bem delineada além de um mar de indecisões que tomam conta da sua vida, e que colocam a sua posição no casal entre o cuidador e o marido, quando fora de casa até já iniciou uma “nova vida” com uma amante. Também o estudo das personagens das filhas, em particular na relação que têm com a mãe pós-acidente, e também com o pai, desembocam num mar de confrontos que não contribuem para estudar a própria dinâmica da família, ainda que acentuem o estado de “deslocamento” de Ane e da sua nova psique, que na luta entre o que consegue fazer com parte do corpo travado, chega a pôr em risco a vida de todos.
O resultado final disto tudo acaba por ser muito mais ligeiro e superficial do que o seu potencial e a força de Dyrholm prometiam, acabando por se entender porque um filme que conceptualmente estaria facilmente na competição principal do Festival de Berlim, viu-se remetido à secção Panorama. No mais, apesar de não ser um desperdício de tempo, “Begginings” – onde Jeanette encontrou inspiração na própria história familiar – ficou-se pelas promessas e uma interpretação de exceção, quando tinha “bagagem” para nos arrasar emocionalmente e cinematograficamente.




















