Nenhum país, como Espanha, tem dedicado mais tempo nos últimos anos a analisar questões ligadas à maternidade, questionando não apenas os estereótipos em relação ao papel da mulher no que concerne aos filhos, como a alegada relação primordial entre criador e cria. “Cinco Lobitos” mostrou isso há um par de anos na Berlinale, enquanto “Salve Maria”, no ano passado, abanou o Festival de Locarno com a questão tabu: são todas as mulheres feitas para a maternidade?. Chega agora a vez de Eva Libertad, numa extensão e expansão da sua curta homónima nomeada aos Goyas, que assinou com Nuria Muñoz, levar à secção Panorama de Berlim, com direito a prémio do público, “Sorda” (Deaf), um filme onde se aventura no campo da relação mãe-filha, mas fundamentalmente no espectro de como a mãe, que sofre de surdez, vê a sua posição no mundo após dar à luz. Temendo nunca conseguir criar uma verdadeira conexão com o seu rebento, pelo menos com a força da do seu companheiro, Héctor (Álvaro Cervantes), que não sofre de surdez, Angela vai entrar numa espiral existencial de questionamentos, com resultados muito terrenos.
Raramente começamos a falar dos filmes devido à sua engenharia de som, mas em “Sorda” (Deaf) temos de começar por aí, pois a ausência de som chega até nós em vários momentos do filme, a começar pelos primeiros minutos. Esta gímnica sonora, que volta a surgir em alguns outros momentos, devido à implantação e o desligar de um aparelho auditivo, mais que um exercício de estilo ajuda-nos concretamente a viajar com Angela na sua percepção do mundo, criando uma ligação ímpar com uma personagem que, num mundo de ouvintes, se sente sempre com menos armas para se conectar com a filha, como uma mãe “normal” o deveria.
“’Sorda’ nasceu do momento em que minha irmã estava pensando em ser mãe. Naquela época, ela compartilhou os seus medos como uma mulher surda comigo, e eu percebi que nunca tinha pensado nisso antes: as preocupações de uma mulher surda que quer ser mãe num mundo ouvinte.”, explicou a cineasta numa entrevista, afastado o retrato a que assistimos do “baseado em factos reais”. Na verdade, o filme é uma construção ficcional onde a questão existencial colocada por Miriam encontra eco em Angela, que continua a se dar com um grupo de amigos surdos, mas que, no dia a dia, e na sua nova posição de mãe, é sistematicamente confrontada com o seu handicap. É que se não ouvir um telefone tocar, isso não a afeta, mas o mesmo não pode dizer se não ouvir a criança chorar ou as outras mães que, no jardim infantil ou na escola, tentam falar com ela.
Numa das melhores discussões que já vimos no cinema nos tempos modernos, Angela e Hector entram numa acalorada troca de palavras e gestos onde novas camadas de complexidade do drama são acentuados. É que ao confrontar o marido com o facto de ter deixado de ser a sua companheira para passar a ser a mãe da sua filha, Angela vai ao centro da questão de como é difícil aceitar a sua surdez num mundo de ouvintes, mas de poucos (ou nenhuns) que realmente escutam os seus anseios.
Artigo originalmente escrito em fevereiro 2025



















