Depois de entornar muitos copos pela goela abaixo, a entrar no momento de um almoço animado no qual se passa ao licor, para adocicar a bebedeira, Ha Seongguk (Ha Donghwa) enfurece-se com a cunhada ao ouvi-la supor que a serenidade profissional dele advém do apoio do pai. Ser descrito como um mimado aborrece e dói. A explosão dessa personagem central de “What Does that Nature Say to You” (“Geu Jayeoni Nege Mworago Hani”) destoa da praxe comportamental dos (e das) protagonistas do cinema feito desde 1996 por Hong Sangsoo. Algumas das figuras que filmou já detonaram as suas frustrações frente à câmera sempre atenta do realizador sul-coreano, como se viu nos desabafos de seu belíssimo “Yourself and Yours” (2016). Nota-se, contudo, um descontrole maior no aspirante a poeta que estrela o seu mais recente exercício autoral, exibido em competição pelo Urso de Ouro da Berlinale 2025. A juventude pode até ser enquadrada como um dos combustíveis do seu ato tempestuoso, porém o gatilho da paternidade soa mais estridente.
Numa seleção de 19 títulos no qual as palavras “mãe” e “maternidade” foram signos presentes (e indicativos de guerras internas), o verbete “pai” ganhou neste filme colorido do artesão por trás de joias como “Walk Up” (2022) – muitas vezes aferrado ao preto & branco na fotografia – uma tónica de severidade nada condizente com a representação corriqueira do signo paterno no audiovisual. A contemporaneidade elegeu os pais como vilões, como inimigos, como entes vulneráveis, como sujeito oculto, como indeterminação. Sangsoo vai na linha oposta. Nele, o pai é presença. Uma presença de ordem, fantasmagórica, ou uma presença protetiva, de amparo e de vigilância. “What Does that Nature Say to You” apresenta-se, nessa toada, como sua longa-metragem mais foucaultiana. O panóptico do patriarcado está com ele, diluído do imperativo categórico da castração. Os pais são figuras que ordenam, mas amam. Amam tanto que Seongguk não sabe lidar com esse afeto, na luta de se tornar profeta do seu próprio destino, pelo verbo.

A verbalização é a grafia por excelência do cineasta responsável por “Hahaha” (Prix Un Certain Regard de 2010). Não é à toa que seu “herói” seja um homem que escreve, que declama (algo expresso numa sequência hilariante) e que se esconde por trás de sujeitos e predicados. Ele é a materialização da forma fílmica de Sangsoo. Classificado por alguns como mestre e por alguns como um repetidor de rizomas, que faz equações matemáticas e não filmes, o realizador mais prolífico da Coreia do Sul (quiçá de toda Ásia) criou para si um espaço de controvérsia ao abraçar o conceito de “banalidade”. O cheiro do naturalismo perfuma as suas apreensões das mais corriqueiras situações do dia a dia, quase sempre regadas a comida, bebida e cigarros. São situações que ele reescreve a partir de uma estrutura de parlatório, de falação (ou “fala-ação”, como dizem os fãs), em que usa o recurso de zoom, na câmara, para se aproximar de detalhes (rostos, objetos, por vezes, animais) capazes de ressignificar o quadro.


O tom arredio de Donghwa espelha essa ressignificação. Os seus problemas começam depois de ele levar a namorada, Junhee (Cho Yunhee), para uma viagem de carro de Seul até a casa dos pais dela, nos arredores da localidade silvestre de Icheon. Ao notar a surpresa do seu amado com o tamanho da casa e os seus jardins montanhosos, Junhee sugere que ele dê uma olhadela rápida no local, mas, na entrada da garagem, eles encontram o pai da moça, Oryeong (Kwon Haehyo, ator assinatura de Sangsoo, em possante atuação). Sempre afetuoso, uma vez por outra acompanhado de uma guitarra, ele convida Donghwa para passar o dia com a sua família, a fim de matar as saudades da filha e conhecer o consorte dela. Esse parece ser o objetivo real da sua hospitalidade. É difícil não nos lembrarmos do Robert De Niro do sucesso “Meet The Parents” (2000) diante do que se vê ali. Oryeong só não é um durão como De Niro parecia na comédia hollywoodiana, fora o facto de Donghwa não ser louvo como Greg Focker, o enfermeiro vivido por Ben Stiller.
Sob as ofertas de guloseimas e de beberagens trazidas por Oryeong, todos naquela casa fitada pela luz dionisíaca de Sangsoo engatam num rol de conversas: o patriarca faz perguntas; a esposa, que também é poeta, arrisca umas tiradas literárias e explica o que fez ao fogão; e as duas filhas adultas pontuam certos diálogos com frases curtas, sendo que uma, a tal cunhada supracitada, passa por uma crise depressiva. Naquela conversa regada a álcool, Donghwa embebeda-se e deixa cair a sua máscara de deferência, revelando um lado bem constrangedor. O respeito que tem por uma dinâmica parental de (suposto) amor coletivo faz jorrar do seu peito uma torrente de inquietude. O pai de Junhee é um colosso sentimental que se faz notar na sua sanha de resguardar a casa, a companheira, a prole. Já o pai do bardo Donghwa não parece ser uma entidade bem resolvida nas suas memórias, na sua saudade.


Com essa Comédia Humana que escreveu, produziu, fotografou, montou e musicou, Sangsoo põe as fricções familiares em xeque, apoiado no interesse em retratar as fraturas da condição masculina. Os diálogos, até os mais ligeiros, sempre têm lirismo. Aqui, contudo, à força de interpretações caudalosas, a dramaturgia soa mais cortante, e verticaliza mais a imersão desse artista no teatro de aparências que norteia a vida em sociedade.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
what-does-nature-say-to-you-pai-palavra-de-tensaoCom essa Comédia Humana que escreveu, produziu, fotografou, montou e musicou, Sangsoo põe as fricções familiares em xeque, apoiado no interesse em retratar as fraturas da condição masculina.