Datada oficialmente como um produto da década final do século XVI, escrita entre 1592 e 1594,“The Tragedy of Richard the Third” inspirou algumas das narrativas cinematográficas mais inusitadas de todo o histórico do audiovisual com a obra de Shakespeare, a começar por um ensaio documental de Al Pacino sobre a pertinência da peça e da personagem central. Houve uma (deliciosa) transposição da trama para a década de 1930, sob a ascensão do nazismo, com sir Ian McKellen no papel central, realizada por Richard Loncraine, em 1995. Há ainda uma jocosa citação do texto teatral no filme “The Goodbye Girl” (1977), com Richard Dreyfuss a gozar da dinâmica nada autocrítica do Duque de Gloucester. A Berlinale de 2025 viu nascer uma nova (e frenética) derivação do enredo shakespeariano: o thriller alemão (coproduzido pela Polónia e pela França) “No Beast. So Fierce” (“Kein Tier. So Wild.”), de Burhan Qurban. Foi o espetáculo de ação mais requintado de todo o festival germânico este ano, com domínio pleno das cartilhas da tensão. O seu brilho mais reluzente está na sua estrela, Kenda Hmeidan. Em estado de graça, ela encarna a contraparte (versão) feminina de Ricardo Terceiro, chamada Rashida York.

Assim como o vilão dos escritos do bardo inglês, ela define-se com os adjetivos mais depreciativos, a julgar a sua desconexão com padrões femininos imposto pela lógica sexista e pela objetificação. Na peça original, Ricardo diz: “eu, que privado sou da harmoniosa proporção, erro de formação, qual obra da natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes de tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e tão fora de estação que os cães ladram-me quando passo, coxeando, perto deles”. Rashida pensa e diz o mesmo de si. A diferença: em vez de cães a ladrar contra ela existem gangues a disparar na sua direção. Medo, contudo, é um sentimento que as privações do mundo não deixaram que tivesse. Onde o mundo teme, ela age… atira… manda atirar.


Cinco anos depois do seu estonteante “Berlin Alexanderplatz” (2020), Qurbani (um cineasta alemão de origem afegã radicado na indústria audiovisual europeia) promove uma vez mais uma cartografia da exclusão, ao mostrar a célula criminosa à qual Rashida pertence como sequela da violência contra populações de origem árabe no Velho Mundo. Conhecido aqui por “We Are Young. We Are Strong.” (“Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes”, 2014), o realizador reforça a sua autoralidade ao expor a institucionalização do ódio na organização do crime por parte de populações marginalizadas pelo capitalismo.

Influenciado pelo ethos do cineasta Rainer Werner Fassbinder, na sua forma de retratar marginalizados, mas capaz de criar um léxico próprio, Qurbani tenta aqui uma leitura queer dos códigos de lealdade na sociedade contemporânea, conduzindo para além dos rótulos que a intolerância sexual insiste em alimentar, sobretudo numa Europa atada aos grilhões do racismo. Rashida deseja as mulheres que mexem com sua libido, provocando-lhe pulsões, mas vê no sexo uma forma de sublimar os traumas de ter sido alijada, desde o berço, do afeto e do respeito, definida como um signo feminino fraturado. Possuir corpos (e armas) é sua maneira de superação e de revanche.

Na trama escrita por Qurbani e Enis Maci, acontece uma feroz disputa entre duas poderosas famílias árabes, os York e os Lancaster, que dominam as ruas de Berlim com o tráfico e a extorsão. Rashida, uma advogada da Casa de York, encerra o conflito entre as gangues com uma violenta investida contra os Lancasters. Apesar dos seus esforços e sucesso, ela continua a ser tratada como subalterna num mundo patriarcal, sem o título de rainha. Determinada a reivindicar o poder, ela manipula, seduz e destrói os adversários. No entanto, ao ascender à autoridade que tanto almejava ter, vai encarar os fantasmas de guerra que remontam a uma ancestralidade dos antepassados.

Em enquadramentos dionisíacos, potencializados pela luz agónica de Yoshi Heimrath, Qurbani consegue verticalizar a sua expedição existencialista às catacumbas da alma de Rashida, com o apoio e Kenda Hmeidan, num desempenho visceral. A atriz gargareja maldade num papel que lida com inteligência com a fragilidade arquetípica do Ricardo III de Shakespeare. A edição elétrica de Philipp Thomas assegura à longa-metragem uma adrenalina digna dos “Fast & Furious” de Vin Diesel – só que com mais âmago.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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