Referendado por uma espécie de projeto estético de entendimento dos modos de amar, de ter sexo e de saber perder numa contemporaneidade que se diz (e se pretende) fluída, “Dreams (Sex Love)” (no original Drømmer) discute o papel patrimonial da memória (afetiva) no balanço dos achados e das evoluções de uma vida. Dá à literatura um papel fulcral no inventário memorial dos momentos de formação de um indivíduo ao assumir a palavra escrita como o pavimento para possíveis reinvenções existenciais. A equação proposta nesse painel geracional de Dag Johan Haugerud, hoje um dos mais inquietantes realizadores da Noruega, é formada pelos seguintes termos: vive-se; quere-se; gosta-se; erra-se; cai-se; recomeça-se… mas tudo isso pode ser narrado, no papel, na prosa, com excessos ou filtragens.

“Le Rayon Vert” (“O Raio Verde”, 1986), que valeu o Leão de Ouro a Éric Rohmer (1920-2010), já ensaiava tal reflexão. Não por acaso, a Berlinale apontou conexões entre “Dreams (Sex Love)” e o artesão da Nouvelle Vague, que foi o mais reverente à expressão literária de todos os nomes grandes do movimento francês dos anos 1960. Dag é apelidado de o Rohmer escandinavo desde “Barn” (2019), quando ganhou notoriedade.

Em 2024, ele resolve falar das angústias sentimentais das novas ou novíssimas gerações, sempre sob uma perspectiva queer, com foco na aceitação das pulsões. Começou com “Sex”, premiado pelo Júri Ecuménico de Berlim, e passou para “Love”, que disputou prémios oficiais em Veneza. A parte três da trilogia, na corrida ao Urso de Ouro, assume como protagonista uma estudante de 17 anos, Johanne (Ella Øverbye, em impecável atuação), que se apaixona perdidamente pela sua professora (Selome Emnetu), que tem o mesmo nome.

Numa tentativa de preservar essa primeira paixão não correspondida, ela coloca as suas impressões sobre o que sente no papel com uma honestidade crua, amparada por um talento singular para a autoficção. Na construção narrativa de sujeitos e predicados, a jovem é uma escritora de vigor. Quando a mãe, Kristin (Ane Dahl Torp), e a avó, a serena Karin (Anne Marit Jacobsen, em magnética interpretação),descobrem a sua redação (já numa forma de original de livro, não de diário), o choque inicial com as descrições íntimas dá lugar à admiração pelo mérito com o vernáculo. As duas mulheres mais velhas – que sempre tiveram uma sólida cumplicidade na dinâmica mãe filha – começam a refletir sobre as suas próprias vivências amorosas, os prazeres e as oportunidades perdidas. A cada no parágrafo de Johanne, elas são lembradas da sensação avassaladora do primeiro amor e do anseio por algo mais. A avó de Johanne, uma poeta muito consagrada, sente orgulho e desconforto com o talento natural da neta, não por inveja dela, mas por saber, na pele, o fardo que a arte da palavra impõe.

Sintonizado com o paradigma defendido por Woody Allen desde os anos 1970 (“O único amor que dura para sempre é aquele que não desfruta da correspondência do outro“), Dag investiga interseções improváveis estabelecidas por Johanne na sua sanha amorosa, entre tentativas, fracassos e acasos. A fotografia de Cecilie Semec preserva um colorido sempre bem temperado, sem excessos, afinado com a proposta investigativa da realização. Abre brechas para o excesso de calor nas cores só em pontuais sequências de sonho, com Anne Marit. Rohmer faria o mesmo. É daí que se fortalece o paralelo entre o mito cinéfilo da França moderna e um autor norueguês em fase de maturidade.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
dreams-sex-love-amar-e-questao-de-palavraSintonizado com o paradigma defendido por Woody Allen desde os anos 1970 ("O único amor que dura para sempre é aquele que não desfruta da correspondência do outro"), Dag investiga interseções improváveis estabelecidas por Johanne na sua sanha amorosa, entre tentativas, fracassos e acasos.