Contam-se nos dedos as vozes autorais da realização capazes de pavimentar integralmente a sua narrativa na palavra, a extrair delas um grau (transcendente) de cinemática, como faz Richard Linklater. No documentário, ressaltava-se Eduardo Coutinho (1933-2014) por essa façanha (a expandir os limites do plano talking head) e, hoje, na ficção, encontra-se essa destreza na obra de comida e bebida perfumados a cigarros de Hong Sangsoo. Linklater nem sempre ficou agarrado ao verbo, vide “School of Rock” (2004) ou o recente (e delicioso) “Hit Man” (2023), só que retorna ao esquema dos filmes concentrados em parlatórios (sempre num viés de tom confessional e existencialista) com recorrência. “Before Sunrise” (1995) serviu como pedra fundamental a esse modo de filmar estruturado em saliva e desabafos, a ter Ethan Hawke como motor de arranque para planos-sequência longos com a câmara a fitar a boca e os olhos em desatino. Construiu ali uma espécie de carta de intenções de uma estética investigativa dos desacertos e desatinos do querer e do viver, que se estendeu à animação com “Waking Life” (2001), um poema em forma de rotoscopia. A forma como explora as fraturas expostas pela fala alcança um novo estágio (e um amadurecimento notável) em “Blue Moon”, concorrente ao Urso de Ouro da Berlinale 75, que leva a engenharia do realizador ao plano da História, ao tornar um bar no seu cenário único, numa trama ambientada em apenas uma noite. Hawke está com ele, majestoso, o que lhe assegura solidez.
Passados 16 anos de “Me and Orson Welles” (2009), Linklater retorna ao universo do teatro, num namorico com as figuras exponenciais dessa expressão artística milenar, no intuito de entender a ciranda de vaidades e de decepções que circunda o glamour da Broadway. Assume, para isso, a data de estreia do espetáculo “Oklahoma!”, 31 de março de 1943, e parte das franjas desse abrir de cortinas para explorar as inquietações do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que viria a morrer no mesmo ano. São dele baladas memoráveis como “The Lady Is a Tramp“; “Manhattan“; “My Funny Valentine” e “Bewitched, Bothered and Bewildered“. No meio de litros de álcool, ele deu ao romantismo expressão poética e tónus para se moldar a qualquer boa melodia. O problema é que quis demais… e, de tanto querer, bebeu demais.
Apesar de retratá-lo na sua fase crepuscular, Linklater jamais se afoga na amargura, embora ela esteja lá, no ciúme e no inconformismo que Lorenz (chamado por amigos e amantes de Larry) sente do projeto teatral da dupla Rodgers e Hammerstein, que reestrutura o entretenimento americano. Parece não haver lugar para ele no que se funda na primeira metade da década de 1940, numa indústria embalada pelas suas canções de amor. Por isso, ele bebe. A certa medida, ao fitar um shot , diz: “Como pode tanto prazer caber em algo tão pequeno”.
São falas (do dinâmico argumento de Robert Kaplow) que Hawke encapa com um humor mordaz, infalível, numa troca de ideias com o barman Eddie (Bobby Cannavale) do Sardi’s, requintado bar na qual os artistas embebedam as suas glórias e desastres. Lá, à espera de um potencial (des)amor, em vestes de amizade, a poeta Elizabeth (Margaret Qualley), Lorenz brinca com as suas falhas, com sua pluralidade sexual, com os seus sonhos frustrados.
A partir dele, Linklater promove a crónica de um tempo que gerou melodias inesquecíveis, mas esqueceu-se de quem as compôs. A luz dionisíaca da direção de fotografia de Shane F. Kelly capta aquelas almas com ternura, mesmo as mais apolíneas, como o Richard Rodgers vivido (com louvor) por Andrew Scott. Temos ali uma cerimónia do adeus a se construir frase a frase, com uma precisão impecável de Hawke, mas não é fácil despedir-se dela.
Link curto do artigo: https://c7nema.net/qlqi




















