Mesmo sem ter construído uma identidade formal ao longo dos seus 33 anos de cinema, Ira Sachs firmou-se como autor (e amadureceu nesse posto) sempre a falar sobre companheirismo nas ressacas do dia a dia, passando pelas veredas da alcova ou não. A filiação às batalhas diárias da comunidade queer levaram-no a abordar o desejo – sempre com elegância – entre homens que são patrulhados pela moral, incluindo aqueles que não dão valor a elas. “Love is Strange”, que nasceu há onze anos em Sundance, segue no posto de obra-prima na sua estética de palavras e desabafos, embora “Frankie” (2019), rodado em terras lusas, seja a longa-metragem que o levou à competição da Palma de Ouro, numa coroação da sua parceria com Maurício Zacharias, argumentista brasileiro. Sempre acolhido com carinho pela Berlinale, embora jamais na mostra principal, o americano de Memphis, no Tennessee, reafirma a sua vocação autoral no festival germânico de 2025 com o tratado mais lírico (de toda a sua filmografia) sobre a conexão entre cúmplices de alma: “Peter Hujar’s Day”. o cineasta destaca-se desta vez por uma elegância na condução dos planos que nunca teve antes, mesmo nos seus exercícios narrativos mais vívidos.
Saliva jorra aos litros aqui, como lhe é peculiar, numa herança (indireta) de um cinema de afeto situado entre Hal Ashby e Paul Mazursky, para ressaltar a sua genealogia nos EUA. A diferença desta vez vem do tratamento mais refinado da edição de som. A luz dionisíaca na fotografia de Alex Ashe também lhe conforta a invenção, no ímpeto de recriar a Nova Iorque dos anos 1970.
O seu parceiro em “Passages” (2023), Ben Whisaw, volta a ampara-lo, numa oferta de gestos brandos e de um falar reflexivo. Com ele, voltamos a 1974, quando a nervosa escritora Linda Rosenkrantz (Rebecca Hall) lança-se numa conversação com o fotógrafo Peter Hujar (morto em decorrência da SIDA, em 1987). Os dois gravaram uma troca de ideias sobre o mundo e sobre o querer num apartamento nova-iorquino, numa fase da História em que aquela cidade era uma fábrica de artes visuais.
O assunto daquela tarde de gravação foi a experiência existencialista e prática) de mundo de Hujar, na sua intransigência. Ao deixar as recordações fluírem, ele descreve vividamente as suas interações com as principais figuras culturais da época, incluindo o poeta Allen Ginsberg e a ensaísta Susan Sontag, bem como os desafios de viver com recursos financeiros limitados numa América assolada pelo consumismo.
A montagem precisa de Affonso Gonçalves desafoga o filme do clima claustrofóbico que o seu cenário único poderia impor, ritmando com fluidez uma fala passional sobre um mundo no qual ser livre era um barato. O que poderia acabar num palavrório transforma-se uma exaltação às parcerias que nos são fiéis… e eternas. Whishaw encarna Hujar com doçura, mesmo quando aquela figura resvala no snob.
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