Num processo estético de expansão do seu parque audiovisual pavimentado por uma ação do governo, a Coreia do Sul preservou os seus lobos solitários habituados a narrativas avessas a rótulos (Hong Sangsoo e Lee Chang-dong), mas investiu de forma pesada em diálogos com o dito “filme de género”, sobretudo os thrillers. Apresentou artesões de primeira grandeza nessa área, como Park Chan-Wook e Bong Joon Ho, mas abriu uma vaga de talentos em formação ou artesões ainda em maturação para investir nesse filão. Alguns extraíram da cartilha criminal ou policial ensaios finos sobre a Maldade, como “Time to Hunt” (2020) ou “The Gangster, the Cop, the Devil” (2019). Existem ainda as parvoíces, algumas saborosíssimas, como a franquia “The Roundup” (2022-2024), com Don Lee (Ma Seok-do). Há ainda projetos que ficam no meio do caminho entre esses extremos, sem registar excelência, a apostar no puro excesso, caso de “The Old Woman with the Knife” (“Pa-gwa”), escrito e realizado por Min Kyu-dong. A 75ª Berlinale foi o local da estreia numa tradição de flirt entre o evento e a produção pop de pancadaria (em moldes do polar noir) da Coreia do Sul. Pena que faltem acabamentos ao filme.
A saga da assassina que, no outono da vida, sexagenária, mostra desgaste (físico e mental) insere-se numa linhagem que tem dado cansaço (pela recorrência incansável): filmes sobre assassinos com problemas de memória ou colapsos cerebrais. “Knox Goes Away” (2023), de Michael Keaton, é o melhorzinho dessa onda de tramas que estraçalham a dignidade de heróis ou anti-heróis. Liam Neeson já fez uns três filmes desses. Mel Gibson e Russell Crowe também navegaram nessa canoa. Ela parece ser uma alternativa temática de manutenção e preservação de um eixo do cinema patrulhado por aparelhos ideológicos da moral. Nem a Coreia do Sul, com a ousadia de quem produziu “Parasitas” (Palma de Ouro de 2019), escapou desta cilada, à qual Min Kyu-dong se entrega sem defesas.
Sob a afiada guilhotina do politicamente correto, o cinema de ação reciclou-se pelo advento de uma estética cinemática, pautada no mais puro movimento, como se fosse um desenho do Papa-Léguas, com a saga “John Wick” (2014-2023) e “Bullet Train” (2022), coroando o esforço de antigos duplos (Chad Stahelski e Ric Roman Waugh, por exemplo) na migração para outro posto: o da realização.
Existe ainda um outro veio, menos exuberante na forma, mas enriquecido por um namoro com o melodrama, no qual o hoje o septuagenário Liam Neeson, supracitado, é a estrela maior. Ela dá pontapés na ruindade alheia enquanto externaliza os contratempos da madureza, da finitude do corpo. É o que se vê em êxitos mercadológicos como a trilogia “Taken” (2008-2014) e exercícios mais existencialistas como “In the Land of Saints & Sinners” (2023).
Há uma terceira via, menos subtil que as outras duas, graficamente ousada na representação da violência, representada por sucessos como “Beekeeper” (2024). Nela, o heroísmo lapidado no início da década de 1980, com “Raw Deal” e “Commando”, na ótica do Exército De Um Homem Só, ganha um novo verniz, pop e coagulado. É o “filme de ação gore”. O gore é um conceito inerente ao terror, como a franquia “Terrifier” (do palhaço Art), no qual o sangue e tripas espalham-se pela narrativa, das formas mais inusitadas e grotescas, beirando a pornografia de brutalidade. Nessa revitalização, a figura de Jason Statham (parceiro de Stallone em “The Expendables”) é um elemento essencial. O que se vê em “The Old Woman with the Knife” (“Pa-gwa”) segue essa vertente número três. Tem até marteladas a estatelar cérebros, além de muitas hemácias a voar pelo ecrã. A sua estrela, Lee Hye-young, garante-lhe alguma elegância, exultando retidão e requinte, mesmo nas sequências mais banais, como a compra de pêssegos numa loja. Pena é que o filme não emule o porte da sua protagonista.
A destruidora de gente má que guia a trama se chama Hornclaw (Hye-young). Ela sustenta-se desde os anos 1970 como assassina. Na luta com facas, ninguém lhe ganha. A sua vida mundana, mas sangrenta, toma um rumo inesperado quando ela conhece um jovem matador cheio de garra que deseja trabalhar ao seu lado. Ela reluta e refuta, mas saca o talento do rapaz. Aos poucos, um incidente do passado vem à tona, num indício de que ele esconde algo. Nisso, a cabeça dela está a prémio.
Uma sequência na qual ela escala uma parede para dar cabo dos algozes há de ficar para a posteridade da Berlinale 2025. A martelada citada algumas frases acima também. Apesar desses dois momentos, Min Kyu-dong filma lutas e correrias sem esmero, descuidado com as aparas de cada plano. Nota-se pouco empenho para que os enquadramentos valorizem toda a agitação dos confrontos, na direção de fotografia nada (mas nadinha mesmo) estilosa de Lee Jae-woo. Sobra o carisma de Hye-young para dar tridimensionalidade à figura de Hornclaw.



















