Mantendo a tradição que acompanha não só boa parte do cinema chinês, mas principalmente aquele que parece ecoar mais nos festivais de cinema internacionais, Huo Meng, na sua segunda longa-metragem, traz até à capital da Alemanha, em plena competição ao Urso de Ouro, mais uma história que acompanha as transformações que o gigante “vermelho” tem sofrido nas últimas 4 décadas, principalmente  no desaparecimento das tradições e na “morte” da vida rural, com a migração em massa das populações para a cidade.

Se Jia Zhangke tem feito disso uma boa parte do seu percurso no cinema, ora via ficção, ora pelos rumos do documentário, outros cineastas, como Li Ruijun (Return to Dusk) e Wang Xiaoshuai (Above the dusk) trouxeram pedaços dessa história à Berlinale nos anos mais recentes. E agora foi Huo Meng que, ambientado no início dos anos 1990, num país à beira de uma grande mudança, entrega ao espectador “Living the Land”, um retrato sentido a uma família de agricultores que nunca se rende à nostalgia ou ao tributo, capturando mais os desafios que as mudanças sociais e económicas, rumo a uma tal de modernidade, representam para a manutenção dos laços familiares e para o território sem si.

Capturando um ano e as suas estações, na vida de uma família extensa num lugarejo, Heng dá particular atenção a retratos episódicos que normalmente cercam o pequeno Chuang (Wang Shang), de 10 anos, cujos os pais partiram para Shenzhen, deixando-o ao cuidado do resto da família. O filme começa com um funeral, mas antes dele há que encontrar as ossadas do avô do rapaz, para as juntar à da falecida, a avó, revelando tradições que passam de geração em geração perante todas as mudanças que vão acontecendo no local e ao seu redor. E a partir de Chuang observamos também a sua bisavó (Zhang Caixia), a tia, Xiuying (Zhang Chuwen), forçada a casar-se com o filho de uma família mais rica, mesmo que contra a sua vontade, ou um primo com deficiência intelectual que facilmente é vítima de bullying pelos outros.

Filme sobre os que vão, mas principalmente sobre os que ficam, “Living the Land” põe na equação várias gerações desafiadas pela mudança dos modos de vida e do “ser”, contribuindo a fotografia e a realização de Heng para unir o espectador junto à “terra”, “a quem a trabalha”, e de quem sofre e lucra com ela. Conversas sobre o preço inflacionado da comida nas grandes cidades mostram que o nível de vida nesta pequena localidade cria uma desarmonia económica tão gritante que “ficar” é aceitar a morte e um caudal de disparidades como destino final, enquanto temáticas como o planeamento familiar, os fuzilamentos do passado, e o coletivismo invadem toda a história da família que é o reflexo de muitas outras do mesmo território.

No final, apesar da sensação de dèjá vu temático, sobressai a forma como Heng tenta criar um épico sobre várias gerações do mesmo clã, falando nisso da própria China, ainda hoje a lutar – como tantos outros lugares em constante transformação – por uma identidade algures entre a sua história e o capitalismo que a veio conquistar.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
living-the-land-rumo-a-uma-tal-de-modernidadepesar da sensação de dèjá vu temático, sobressai a forma como Heng tenta criar um épico sobre várias gerações do mesmo clã, falando nisso da própria China, ainda hoje a lutar por uma identidade algures entre a sua história e o capitalismo que a veio conquistar.