Sobre o colonialismo: Frantz Fanon (1925-1961), teórico que lutou pela descolonização da África, considerava “o colonialismo, um sistema violento e desumanizante. Um sistema construído e perpetuado por meio de estereótipos, e que nega às pessoas colonizadas o direito ao seu passado, à sua essência e valores“. Um sistema agressivo de dominação política, económica e cultural de territórios e populações, por parte de potências europeias, e não só. 

Este é o tema abordado no filme  “Banzo (2024), da argumentista e realizadora portuguesa Margarida Cardoso (1963-). Ela, aos três anos de idade, foi com a família viver em Moçambique (o pai, militar da força aérea portuguesa, foi transferido para lá trabalhar). Só em 1975 regressaram a Portugal, quando ela tinha 12 anos de idade.

O colonialismo é algo que nunca pode ser esquecido ou apagado, afinal há ainda muito a ser reparado. Os países colonizadores devem imenso ao povo dos países brutalmente colonizados. Além da exploração das terras e recursos naturais, houve uma maciça exterminação de pessoas negras e povos indígenas e a destruição das suas culturas e tradições, apropriação indevida de bens e outras tantas questões. 

Entramos no filme e de imediato vemos uma imagem tensa: um barco a vapor está a chegar a uma localidade da Ilha de São Tomé, e um jovem negro é morto a tiros na proa. Ele veio com o seu amigo, um homem branco português, a personagem Dr. Afonso Paiva (interpretado por Carlotto Cotta), um médico de Lisboa, que trabalhava em terras colonizadas no Congo, e foi para São Tomé para curar o banzo, uma doença de pessoas escravizadas.

O corpo do jovem morto é então levado até a igreja, para ser preparado rumo ao enterro. “A quem pertence este homem?”, pergunta o padre ao Dr. Paiva. Sim, nos tempos coloniais, as pessoas negras pertenciam aos colonizadores que as exploravam e escravizavam. Os pretos, como eram chamados pelos seus proprietários, viviam confinados em senzalas em condições subumanas. 

Nas terras da “Roça Boa Esperança”, terra rodeada de mata virgem e do mar, vindos de Moçambique e outros países de África, homens, mulheres (e também crianças) feitos prisioneiros, foram arrancados das famílias, das suas terras de origem e obrigados a esquecerem quem são e de onde vieram.

As mulheres trabalham noite e dia no serviço doméstico; já os homens nas plantações de cacau. Maltratadas e amedrontadas incessantemente, estas pessoas nem sequer podiam falar ou gozar de momentos alegres, permanecendo como corpos tristes em silêncio.

A “Roça Boa Esperança“, única locação do filme, é um lugar vigiado e isolado, onde só é possível chegar de barco. Como relata uma personagem: “um lugar em que até a religião é o trabalho“. Os escravos nem podiam frequentar a única igreja que havia no local. De qualquer modo, não custa lembrar que a África sempre cultuou religiões afro, e não precisamente aquela católica.

 “Banzo” é uma ficção que nos coloca frente ao ecrã como personagens da história contada. Durante o filme, algumas vezes, fiquei tão agoniada que tive náuseas, de tanto me afetar com a violência (mostrada de forma criativa com subtilezas) das imagens e histórias dolorosas, das vidas narradas. 

Algumas das personagens, pessoas escravizadas, deixam de comer como ato de resistência, na intenção de serem devolvidas à sua terra natal, o que não acontece, acabando por morrer de doenças, da pratica do suicídio, enforcadas penduradas em árvores, enquanto outras são assassinadas a tiro quando, no calar da noite, tentam, em vão, fugir.

E o pior, o lugar onde vivem é vigiado por outros homens negros, armados, também escravizados e obrigados a se tornarem opressores dos seus pares. Eles trabalham sob a ordem de não deixarem os seres oprimidos fugirem. E, mesmo se fugissem, não conseguiriam ir a lado nenhum.  São pessoas que não têm voz, num lugar que, para eles, é um campo minado de dor e morte. Pessoas analfabetas que trabalham em condições precárias, às vezes acorrentados ou com uma espécie de gaiolas de metal na face para as impedirem de comer e conversar. Não tinham direito a nada, nem mesmo a usar o seu verdadeiro nome, sendo tratados como animais selvagens. Pessoas para quem morrer é uma questão de tempo. Eles não resistem porque sabem que receberiam a morte como punição e foram poucos os que um dia escaparam, entraram num pequeno barco e partiram, talvez para morrerem livres no mar, já que dificilmente conseguiriam chegar às suas terras. 

Algumas das falas que ouvimos da boca dos administradores da “Roça Boa Esperança” são: “Há coisas mais importantes a fazer do que salvar os mortos “; “Os pretos devem ser tristes e calados”. Isto me faz lembrar do significado da palavra banzo, a doença causada pelo sentimento de profunda tristeza que os escravos sentiam devido a nostalgia da sua terra de origem, além de forma de resistência e luta pela liberdade. Paravam de comer, de beber, de falar, e acabavam por morrer dada a fragilidade dos corpos ou se suicidavam, regressando à terra natal somente em espírito, ou seja, mortos. Já que os algozes colonizadores, nem mesmo mortos os mandariam de volta a casa. Como disse Franz Fanon, os colonizadores negam às pessoas colonizadas o direito ao seu passado e à sua origem.

A  “Roça Boa Esperança” é um lugar com as suas próprias leis, regidas por quem detém o poder económico e social.  O Dr. Paiva (imagem a seguir) é o único branco que se compraz com o sofrimento “dos pretos” colhedores de cacau, ajuda-os e sofre com eles. Os administradores da roça africana  (do território colonizado) são enviados de Lisboa pelos proprietários, pelos ocultos homens do poder da capital lusa; homens brancos privilegiados, exploradores de terras e de mão de obra humana.

Na história contada no  filme, só quem tem voz são os brancos, à exceção do fotógrafo Alfonso, vivido pelo excelente ator angolano Hoji Fortuna, radicado entre Lisboa e New Iorque. O fotógrafo veio da África do Sul-Cidade do Cabo, e é o único homem negro LIVRE no filme. Um dos raros homens daquela época que viajava para fotografar pessoas, e acaba por fotografar pessoas negras a pedidos dos administradores da “Roça Boa Esperança”, para imagens de cartão postal a serem mostradas aos ricos brancos além mar. Mas, Alfonso transgride e também documenta a existência das pessoas negras, criando dignos retratos deles, e nomeia as imagens com os seus verdadeiros nomes, e não aqueles inventados pelos colonizadores que os exploravam. Há também vários momentos na narrativa que Alfonso ajuda os trabalhadores da “Roça Boa Esperança” a terem alguma dignidade.

O fotógrafo Alfonso (imagem acima) e o médico Dr. Afonso, são os únicos defensores das pessoas escravizadas.

A ficção,  feita a partir de uma realidade e dados históricos, leva em conta uma pesquisa cuidadosa e visivelmente relevante. As imagens do filme são tensas do início ao fim, o som intensifica a dramaticidade das cenas e os sentimentos das personagens. O roteiro e a montagem do filme caminham juntos de forma habilidosa. Uma direção de arte impecável, figurinos bem caracterizados, uma narrativa que se passa em 1907, tem como locações fechadas casarões enormes numa área em ruínas de plantações de cacau em São Tomé. Enquadramentos pictóricos, muitas vezes criados usando janelas e portas, reforçando a beleza das paisagens naturais da Ilha de São Tomé, nas proximidades da aldeia da Boa Esperança, onde foi rodado o filme. A fotografia em tons escuros, conecta-se com a temática da história retratada, assim como o uso dramático do som.

Depois de ver o filme, uma pergunta que fica é: Todas as pessoas podem contar as suas histórias? 

Infelizmente, as diferenças de classe, a história e a realidade tem nos mostrado que nem todos podem (embora, a meu ver,  todos tem o direito); os poderosos interditam ou sufocam as histórias de muitas outras pessoas.

No debate após a exibição do filme no Cinema Ideal em Lisboa, onde assisti “Banzo”, perguntei à realizadora Margarida Cardoso:  

-Sobre a pesquisa do filme, eu quis saber se a realizadora teve auxílio de historiadores, principalmente, de São Tomé, para escrever o argumento e criar as personagens, uma vez que a história do filme se passa nesta ilha africana.  

Ela afirmou que sim e que acedeu o Arquivo Público Histórico de São Tomé, o qual disse ser excelente e que tem muito material sobre o período colonial. 

– Também a questionei: Em nenhum momento do filme vemos personagens que diretamente representam a figura do colonizador – proprietários de plantações de cacau, os donos do poder. Vemos apenas brevemente uma foto de supostos homens colonizadores numa parede. É nos dado a ver somente os seus representantes indiretos, os administradores da “Roça Boa Esperança”. Porquê?

-Ela respondeu: “Em lugar nenhum nunca vemos as caras do poder. Eu não quis polarizar isto”. 

Ela optou por não criar uma representação, uma personagem que diretamente representasse os detentores do poder colonial. Vindo eu de um país que foi colonizado, senti falta de tal representação no filme, dos detentores do poder colonial serem retratados por meio de personagens que os representem diretamente, e não apenas através de seus empregados ou por uma breve fotografia na parede. Não podemos esquecer que, além do mal que eles fizeram a milhões de pessoas, os seus herdeiros, ainda hoje vivem de forma privilegiada com recursos financeiros desta época, dentre outras questões.

Para quem não sabe, a cineasta, que é uma mulher branca portuguesa,  disse ainda que “queria fazer um filme que pudesse contar tudo aquilo que ainda a incomoda sobre a questão colonial e sobre a história desvelada a partir da sua pesquisa“.  Margarida Cardoso possui uma longa carreira no cinema e já fez outros filmes igualmente bons sobre o colonialismo, como “Yvone Kane” (2014) e  “A Costa dos Murmúrios” (2004). Vale a pena conhecer o seu cinema .“Banzo” tem a duração de 127 min. Foi produzido pela Uma Pedra no Sapato. É um filme primoroso! Está em cartaz.

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Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
Jorge Pereira
banzo-nostalgia-da-terra-natalNas terras da "Roça Boa Esperança", terra rodeada de mata virgem e do mar, vindos de Moçambique e outros países de África, homens, mulheres (e também crianças) feitos prisioneiros, foram arrancados das famílias, das suas terras de origem e obrigados a esquecerem quem são e de onde vieram.