Para se tornar realizador/a de cinema é preciso fazer filmes, e assim a compositora-cantora e atriz italiana Margherita Vicário (1988-) estreia-se na escrita e direção de cinema com a longa-metragem “Glória! (2024). Um drama sobre a potência feminina juvenil, através da história de jovens órfãs que tiveram a chance de aceder a aulas de música e fazer parte de uma orquestra feminina do Instituto Santo Inácio (Instituto religioso católico). E sobre o talento de mulheres musicistas escondidas, ocultas nos textos da história.

As meninas foram deixadas no orfanato por diferentes e trágicas razões familiares, as quais Margherita não aprofunda. Ela coloca em evidência a ascensão feminina num tempo de intenso poder patriarcal, num local cujos valores e a hipocrisia religiosa reinam. O filme é ambientado numa localidade próxima a Veneza do séc 17, filmado em poucas locações. 

Como referência para compor as personagens, a realizadora cita nos diálogos a escritora francesa Madame de Staël (Paris 1766-1817), pelo seu pensamento libertário, pós revolução francesa. Filha da alta sociedade parisina, Staël era uma mulher determinada, independente e muito culta, que desde muito jovem se interessava pela vida política e contestava a opressão feminina da sociedade do seu tempo. Os seus escritos influenciaram outras mulheres, além de escritoras da época do romantismo literário francês. 

É em Madame de Staël que as meninas da orquestra comandada pelo Maestro Perlina (Paolo Rossi) se inspiram para transgredir as barreiras que enfrentam. Comandadas por um homem herético e falso, com os valores religiosos dos homens do Papa dos anos de 1800.                                                                         

Uma delas, a prodigiosa Teresa (vivida pela atriz francesa Galatéa Bellugi), aquela que fazia a limpeza do Instituto e a única que não tinha formação musical, rompe com o poder da classe social privilegiada ao aprender a tocar piano sozinha, às escondidas. E só assim, ela vai ser aceite pelas outras órfãs, que desde crianças puderam estudar música. Sim, o piano é ainda hoje um instrumento extremamente elitista e excludente. 

O Maestro Perlina impotente, em crise criativa, precisa compor o repertório para receber o Papa Pio VII no Instituto onde  trabalha, o que vai favorecer uma das raparigas a ter a oportunidade de tocar as suas próprias composições. 

No âmbito afetivo, Perlina é um homem frágil, que embora tenha poder sobre as raparigas, é submisso ao amor de Cristiano, um jovem gay que o seduz. A realizadora expõe assim a hipocrisia e a falsidade moral entre maestros, padres e outros membros da Igreja Católica, além da troca de favores entre eles. O jovem quer cantar numa orquestra poderosa e, em troca, oferece afetos íntimos ao Maestro da ordem religiosa Santo Inácio, que também é gay (ocultamente).

Margherita cria as personagens femininas com o poder de ser o que elas quiserem. No plano da realidade, isto não é simples assim, mas acho que no filme faz sentido, pois a narrativa é uma espécie de fábula. Certamente ver mulheres empoderadas nas telas do cinema pode encorajar e inspirar as jovens dos dias de hoje, a tomar as rédeas das suas escolhas, apesar dos obstáculos existentes. 

A realizadora coloca em discussão os direitos femininos de uma forma despojada, fabuladora e divertida. E legitima o poder que nós mulheres temos sobre nossas escolhas. A história é contada, em alguns momentos, de forma fantasiosa, mas pode popularizar tal temática restrita a um certo intelectualismo feminista, e fazê-la chegar às gerações atuais de jovens mulheres e às suas famílias.  

O facto do filme trazer uma narrativa popular, acessível ao público alvo, as meninas adolescentes, não tira o seu valor. O público juvenil é carente de filmes que fazem as meninas refletirem sobre as suas escolhas e a identidade feminista.

Há uma contradição positiva na relação que Margherita estabelece entre a figura do Maestro e as meninas, cuja orquestra comanda. De um lado, um velho severo, árido e falsário; do outro, o frescor da juventude e da música tocada pelas meninas, que carregam doçura na sua rebeldia libertária, aproveitando-se dos conhecimentos musicais recebidos e contestando qualquer submissão vinda do Maestro de estilo patriarcal-machista.

As adolescentes são provenientes de famílias pobres marginalizadas, todavia, e felizmente, desde muito cedo tiveram a oportunidade de ter formação musical no orfanato, uma espécie de convento mantido com dinheiro da alta sociedade. Aliás, sobre a burguesia que colabora com o acúmulo da riqueza da Igreja, numa cena do filme ficamos a saber (infelizmente, de forma breve, pois realizadora não se aprofunda neste assunto) que uma das meninas, Teresa, foi levada para o orfanato depois de ter sido abusada pelo patrão, na casa onde trabalhava como empregada doméstica, e depois ter dado à luz um filho indesejado. Patrão que contribui financeiramente com a manutenção do orfanato. 

Teresa (no frame acima) tem a sua realidade mudada, quando um piano foi doado para o Instituto/Convento/orfanato por uma família rica. É quando ela, sem que ninguém saiba, passa noites e noites na cave a estudar e aprender a tocar, fazendo uma leitura musical e uma performance mais popular, animada e vivaz (ao estilo da música pop de Margherita Vicário enquanto musicista), e não aquela das partituras barrocas tradicionais ensinadas por Perlina às outras suas colegas do orfanato. Aliás, a banda sonora do filme é moderna, pop,  cheia de energia, conectada com a vitalidade e luminosidade das jovens personagens femininas e com a sonoridade de Margherita cantora-compositora no plano do real (ela por sinal, assina também a banda sonora). 

Sobre a formação musical das outras meninas da orquestra, disse uma delas, a compositora e talentosa violinista Lucia (interpretada pela atriz italiana Carlotta Gamba) : “aprendemos a ler partitura, antes mesmo de sermos alfabetizadas”. Elas são estudiosas, dedicadas à música, ousadas para o seu tempo e solidárias umas com as outras, apoiam-se e potencializam as qualidades de cada uma (ainda que no início tentam excluir Teresa).        

Uma mensagem do filme poderia ser: “Mulheres unidas, jamais serão vencidas“, parece utópico (ou até mesmo clichê), mas funcionou.  Um exemplo é a cena catártica em que as musicistas tomam o poder, rebelam-se no bom sentido, ao se apresentarem sozinhas na orquestra, na receção musical para o Papa Pio VII. Momento no qual, quem vibra e apoia as meninas são outras mulheres, as crianças e os idosos, excluindo-se os homens. Um tempo depois, elas se libertam da clausura e dos limites que o convento/Instituto impõe e vão para o mundo seguir os seus destinos como mulheres musicistas.

Ainda sobre a banda sonora do filme, esta é usada como um poderoso recurso dramático, não apenas nas cenas mais musicais, mas durante todo o filme. Inclusivamente, ela intensifica a atuação e dialoga com os sentimentos das personagens.

Outros recursos que colaboram na expressão da história contada são a escolha dos objetos de cena, dos figurinos e das locações que contextualizam a sociedade e um tempo histórico. A montagem, assim como o movimento de câmara, é bastante ágil, ligeira-fluída, relacionando-se com o comportamento das adolescentes.

Não posso esquecer de destacar algo importante: nos anos de 1.800, época em que é ambientado o filme, as mulheres nem sequer tinham voz para se expressar publicamente. Por isso, imaginem o que enfrentaram aquelas que ousaram compor e tocar instrumentos musicais e desejaram serem reconhecidas pelo seu talento e dedicação à música. Sabemos que sempre houve o apagamento de nomes de mulheres na história da música (e de outras artes) e o filme de Margherita Vicário evidencia isto. E é também uma introdução ao feminismo teen, o qual envolve o ativismo de adolescentes em idade escolar (14 a 18 anos) e que defendem a identidade feminista,  como está no filme.  

A ficção ‘’Glória!’’ (2024) tem a duração de 1h51 min, está em cartaz nos cinemas de Portugal, e vale a pena ser visto sem preconceitos!  O filme esteve na competição da Berlinale.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/1n4x
Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
Jorge Pereira
gloria-o-primeiro-filme-de-margherita-vicarioUm drama sobre a potência feminina juvenil, através da história de jovens órfãs que tiveram a chance de aceder a aulas de música e fazer parte de uma orquestra feminina