Jazz, Guerra Fria, colonialismo e o destino da República Democrática do Congo cruzam-se neste ensaio brutal e profundamente inteligente assinado pelo belga Johan Grimonprez, que depois da estreia em Sundance passou pelo IndieLisboa, chegando agora ao Porto/Post/Doc com tanta inventividade com a da CIA para manipular a geopolítica global nos anos 50 e 60.
Descrever este “Soundtrack to a Coup d’Etat” como um documentário musical não podia ser mais redutor tal o volume de informação política com que somos invadidos por entre pedaços musicais que funcionam como banda-sonora para um golpe de estado no Congo, o qual depôs (e assassinou mais tarde) Patrice Lumumba, provocando um carnaval de emoções trágicas nas Nações Unidas.
Da utilização de músicos de jazz, como Louis Armstrong, como distrações para encobrir a ingerência política em vários países, sob o comando da CIA e outros mercenários, passando por um Nikita Khrushchev a bater com os sapatos na ONU, nunca esquecendo a conselheira e redatora de discursos de Lumumba, Andrée Blouin, “Soundtrack to a Coup d’Etat” desemanhara uma teia sempre com as suas referências (escritas, sonoras, pictóricas, videográficas) sempre explícitas, agarrando o espectador ao longo de 150 minutos a uma história que demonstra a resistência dos países ocidentais à independência concreta (e real) dos países africanos e asiáticos, que em bloco se unem na ONU e põe em sentido os restantes.
E ao colocar em cena anúncios publicitários da Apple à Tesla, nomeadamente no que toca às suas baterias, Grimonprez traz até aos dias de hoje o problema do Congo, de Katanga de empresas de minérios privatizadas meses antes da independência do país – o que viabilizou todas as formas de neocolonialismo que se seguiram, onde EUA e Bélgica multiplicaram-se em ações para tentar explorar e comandar a região, enquanto URSS e China tentam enfraquecer os “imperialistas” e também eles tentam fazer crescer a sua influência no território.
Por tudo isso, “Soundtrack to a Coup d’Etat” é um documento essencial, não apenas pela lição de História que representa, mas pelo sentido de arrojo e risco que Johan Grimonprez toma nas suas decisões artísticas.




















