Quando, em 2019, apanhámos Bogdan Muresanu no Curtas Vila do Conde, por ocasião do lançamento da sua curta-metragem “Cadoul de Craciun” (Presente de Natal), o romeno deixava bem claro que o cinema que gostava de fazer envolvia temas muito sérios, ainda que tratados com muito humor negro à mistura. 

Ele, que em 2013 tinha lançado “Tuns ras si frezat” (2013), onde colocava um torturador a visitar um barbeiro que tinha sido torturado no passado, contava então a história de uma família que, nas vésperas da época festiva do natal, tinha de lidar com a inconfidência de um miúdo que, na sua carta ao pai natal, pedia que o Tio Nicolae morresse como desejava o pai. Sabendo que essa inocente carta ao Pai Natal seria certamente lida pela polícia secreta, o pai dessa criança, Gelu (Adrian Vancica), orquestra um plano para “assaltar” o marco do correio onde o miúdo tinha depositado a carta.

Gelu (Adrian Vancica)

Essa história e essa curta-metragem é revisitada neste “The New Year That Never Came” (O Ano Novo Que Não Aconteceu),  a primeira longa-metragem do cineasta, que às personagens que vimos anteriormente adiciona muitas outras, todas elas a terem de lidar com a ditadura de Ceausescu numa Roménia prestes a chegar ao fim de ano com a as ruas de Timisoara já em ebulição.

 “The New Year That Never Came” começa com uma equipa de televisão em pânico. Um programa festivo de natal que tinham gravado terá de ser novamente filmado pois a atriz principal fugiu do país e as autoridades exigem uma nova montagem do show. É nessas circunstâncias que Stefan (Mihai Calin), um produtor e diretor do programa, cujo filho, Laurentiu (Andrei Miercure), também tem ambições de abandonar o país, parte em busca de uma mulher parecida à atriz que filmou (e fugiu do país), encontrando-a numa companhia teatral. O problema é que essa atriz, Florina (Nicoleta Hancu), também não é fã de Ceausescu, dificultando a concretização de uma tarefa que envolvia a leitura de um texto de vangloria a figura do ditador e o define como “o filho mais querido do povo”.

Várias outras figuras – como Margareta (Emilia Dobrin), uma mulher cuja casa, assim como o resto do bairro, vai ser demolida – circulam num filme que escolhe o 4:3 como formato de imagem para evocar as transmissões televisivas da época, mas também cercar esteticamente as personagens com as várias camadas de opressão que sentem no dia a dia. O uso da cor pelo cineasta faz também essa ligação ao passado, enquanto a música e a direção artística levam-nos a esses tempos em que se começa a sentir que o odor bolorento da ditadura comunista está a dar os últimos suspiros. 

Florina (Nicoleta Hancu)

Tal como nas suas curtas anteriores, Bogdan Muresanu faz um trabalho notável no casamento do drama, da tensão e do humor. “ Eu vivi essas coisas. Era muito jovem, mas tenho memórias. Para mim, tudo era absurdo e incompreensível. Em particular, o medo dos adultos. A Roménia era um país de sussurros e eu na época não percebia o porquê”, disse-nos o cineasta em 2019. Palavras que facilmente se replicam nesta sua primeira longa-metragem, que culmina com a revolução e a famosa imagem de Ceausescu que, apesar de convocar uma manifestação em seu apoio, acaba por ser engolido por uma multidão e executado, juntamente com a sua esposa, Elena Ceaușescu, no dia de natal de 1989.

No Cairo, que assistiu e participou ativamente na Revolução Egípcia de 2011, os créditos finais de “The New Year That Never Came” ainda não tinha surgido no ecrã e já se aplaudia vigorosamente as imagens do início da revolta romena. E houve também lágrimas, tais quais as de Florina. Lágrimas que encapsulam e expelem décadas de opressão. E tudo é impulsionado pelo uso do Bolero de Ravel, com a montagem a conectar todas as personagens e histórias, assaltando as nossas emoções e sentidos.

E nisto, Bogdan Muresanu cria um belíssimo filme que, em países como Portugal, que viveu o seu 25 de abril há 50 anos, certamente gerará reações apaixonadas como as que vimos no Cairo.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/5pzu
Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-new-year-that-never-came-o-fim-da-era-do-tio-nicolaeBogdan Muresanu faz um trabalho notável no casamento do drama, da tensão e do humor.