Sempre que ouço o som dos bombardeios, imagino qual criança se tornará órfã, que mulher se tornará viúva, que pai vai ver os filhos chorarem, e qual será o modo que a casa será destruída, que história trágica virá depois deste som;  o som da morte vindo de longe a cada hora”. 

poema de Heba Abu Nada

Nos filmes que recentemente tenho visto sobre a Palestina, este cenário expresso na poesia de Heba Abu é algo comum. Igualmente, este é o estado permanente de risco em que vivem os palestinos sob um céu iluminado pela explosão de bombas e balas de armas de fogo. Ela própria, a poeta Heba, acaba por não conseguir escapar dessa trágica realidade, vindo a falecer no dia 20 de outubro de 2023, aos 32 anos, num bombardeio israelita na Faixa de Gaza, que atingiu a sua casa.

E não são diferentes as histórias que ouvimos os palestinianos narrarem em “My Love Waits me By the Sea” (Habibi istanan and al bahar, 2013), um filme com realização e argumento de Mais Darwazah, cineasta palestiniana atualmente radicada na Jordânia.

Durante 80 min da narrativa vamos ver e ouvimos memórias e sentimentos de quem habita um território em permanente risco de desaparecer e cujas vidas estão em suspensão: a Palestina. Um documentário ensaísta, biográfico, poético e fabulador, em que as fronteiras estéticas dos géneros cinematográficos se fundem e se diluem. Um filme com uma estética inventiva e leve, apesar do tema pesado e doloroso. Nele o que importa não é a qualidade técnica-cinematográfica, mas o conteúdo, as personagens e o contexto em que as situações se passam. 

O filme é um registo que documenta (e ao mesmo tempo envolve um enredo-fábula)  da primeira viagem da realizadora Mais Darwazah, de regresso ao seu país de origem, ao lugar que não conhecia, a Palestina. Ela vai também ao encontro da poesia de Hasan Hourani, o seu amante imaginário, cujo mundo poético, libertador e utópico, a conquista de imediato. Entre a fabulação e a realidade, Darwazah interage com o cotidiano de pessoas que vivem neste país, questionando a indefinição do lugar e a necessidade dos habitantes acreditarem em “sonhos que não obedecem fronteiras“, como relata uma das personagens do filme que vive em Jerusalém. Outra personagem que vive em Jaffa, por sua vez, já não sonha. E quando a realizadora lhe pergunta onde estão os laranjais da cidade, ele lamenta: «já não existem, os colonos israelitas arrancaram todos, eles nos tiram tudo, praticamente já não há plantações aqui”, conclui o seu relato.

Hasan Hourani (1974 – 2003) é um poeta e ilustrador palestiniano que faleceu aos 29 anos em Jaffa, quando tentava salvar o seu sobrinho no mar. Poucos anos depois, Darwazah descobriu-o e se sentiu-se atraída por ele,  pela sua arte. Depois de ter lido The Fish and the Bird, desse autor, ela vai inventar conexões dele com o seu filme. Trago aqui um trecho desse livro infantil (um livro de poesia com ilustrações) que a inspira: “Ele era um pássaro apaixonado por um peixe, o que os separava era a fina linha de água, que se rompia por um só beijo”. Livro em que Hasan atravessa o mundo inteiro por meio da fabulação, ainda que vivesse confinado pelas fronteiras impostas dentro do seu próprio país. Também gostava de destacar o título do filme, a fabulação da realizadora que espera encontrar Hasan, o seu amor  imaginário, à beira-mar. Mar que é visto no filme como espaço de liberdade e invenção. Sempre pensei no mar como lugar de liberdade e democrático.

Na viagem ao país da sua origem, a cineasta vai misturando a fantasia do livro de Hasan, coletando relatos e registando a escuta e o desabafo das pessoas que encontra pelas ruas de Jaffa, de Jerusalém, e outros locais da Palestina. Ela escuta o sentimento e os lamentos de um povo exaurido, mas que carrega restos de esperança para derrotar o medo diário que os perturba: o de conquistar a liberdade, um sonho recorrente. Através do filme, a realizadora vai colocando em relação situações reais, a imaginação, os sonhos e a utopia de quem disso precisa para continuar a EXISTIR, a RESISTIR ao impossível. 

As imagens e sons do filme instigam-nos a ver o que está para além do aparente, além daquilo que achamos saber sobre a Palestina. São camadas de histórias de vidas, de uma tensão incessante por ultrapassar, de incómodos que dilaceram a mente e o corpo de quem deve RESISTIR a todo tipo de controle: controle religioso, da polícia, do Estado de Israel, colonizadores vizinhos e de outros continentes; numa terra que só pode existir como estado de liberdade dentro deles, como narra um personagem de “My Love Waits me By the Sea“. 

Numa das entrevistas dadas sobre o filme, Darawazah relata: “Esta jornada de volta à Palestina acompanhou-me toda a vida. Mas eu nunca tinha tido coragem de fazer a viagem. E não queria apaixonar-me por um lugar e perceber que era proibido estar nele.” E questiona-se: “Como retornar a um lugar que só existe em sua mente?” Talvez o seu cinema sirva para ajudá-la no regresso a este lugar que nunca esteve pessoalmente e que, mesmo distante, a ele pertence, mas, principalmente, para desafiar através das imagens dos seus filmes (não apenas deste sobre o qual escrevo) o que é proibido, e perceber o que ainda resta de esperança nas diferentes gerações da sua família e na vida do povo palestiniano como um todo.

My Love Waits me By the Sea” foi exibido na Cinemateca Portuguesa através do Festival Olhares do Mediterrâneo,  festival que tem na sua programação somente obras cinematográficas feitas por mulheres, e que este ano fez homenagem à Palestina, o país convidado. Trazendo curtas e longas-metragens; filmes documentários, ficcionais, autobiográficos, ensaístas ou experimentais, uma amostragem reduzida, porém expressiva e diversa, obras feitas por cineastas palestinianas que, em sua maioria, vivem exílio. Filmes que só recentemente temos tido acesso aqui neste canto do Ocidente. Filmes políticos-resistentes feitos por mulheres que se valem do exílio como forma de manter acesa a chama da existência por meio do cinema. Registos imagéticos também carregados de afetos que expõem as feridas cravadas num tempo histórico que no presente ainda sangra. Retalhos pretéritos, memórias de um povo e suas incansáveis lutas e modos de resistência, tentando sobreviver nos dias CORRENTES e ao mesmo tempo interrogando o passado e as cordas bambas do futuro. 

O povo palestino há demasiado tempo está a viver privado de liberdade, preso em seu próprio território ou a viver como migrantes, refugiados ou exilados em diferentes partes do mundo árabe ou em outros continentes. Lutam praticamente a sós contra os seus opressores. Enquanto isto, a Europa e o mundo praticamente ignora o sofrimento deles. Uma realidade que pelo menos o cinema e os festivais internacionais de cinema têm cumprido o bom papel de levá-la para além das fronteiras árabes-palestinas. Somado a isto, os debates que acontecem após as exibições dos filmes ajudam a questionar o silêncio e a falta de apoio internacional ao povo da Palestina, e porque persiste a constante defesa do povo judeu e do colonialismo israelita e de seus apoiantes que oprimem cada vez mais os palestinianos. Questões que de algum modo estão no filme de Mais Darwazah. Filme que vem nos lembrar de uma realidade que existe longe dos nossos olhos, mas que temos a oportunidade de aceder através do cinema, e que, no mínimo, serve para refletirmos e questionarmos as injustiças que vem sofrendo o povo árabe palestiniano. Um povo que tudo que mais deseja é viver em liberdade em sua própria terra.

Na sua carreira de cineasta independente, Mais Darwazah fez também o documentário “Take Me Home” (2008, 54´ ), filme de conclusão do curso Realização de Documentários no Edinburgh College of Art em 2007, desenvolvido com a bolsa Chevening do British Council, exibido em cerca de 20 festivais internacionais de cinema. Neste filme, a realizadora explora os seus medos e agarra-se aos momentos íntimos partilhados com a sua avó e a tia-avó: uma geração cuja esperança foi desafiada por décadas de opressão e conflitos. Darwazah também integrou, juntamente com Nassim Amaouche, Sameh Zoabi e Erige Sehiri, a realização da longa-metragem “Family Album“, que inclui a sua curta-metragem “The Dinner” (2012), co-produzida pela Arte France. E em 1997, ela fez a Licenciatura em Arquitetura na Universidade de Kingston, no Reino Unido. 

Deixo o trailer do filme e desejo que o consigam ver em algum festival de cinema ou em alguma plataforma streaming. VALE MUITO A PENA!

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Lídia Mello
palestina-o-meu-amor-espera-me-a-beira-marNa viagem ao país da sua origem, a cineasta vai misturando a fantasia do livro de Hasan, coletando relatos e registando a escuta e o desabafo das pessoas que encontra pelas ruas de Jaffa, de Jerusalém, e outros locais da Palestina. Ela escuta o sentimento e os lamentos de um povo exaurido, mas que carrega restos de esperança para derrotar o medo diário que os perturba: o de conquistar a liberdade, um sonho recorrente.