É difícil não pensar, tal a forma derivativa de toda a ação, que “Wolfs” apenas existe como forma de reunir no ecrã uma dupla que o público aprecia, independentemente daquilo em que estão envolvidos em cena. George Clooney e Brad Pitt já tinham mostrado anteriormente, fosse em “Burn after Reading” ou na franquia “Ocean’s”, que têm uma enorme química a trabalhar em parceria, e o filme aproveita essa deixa para os levar novamente ao palanque, aproveitando-se do carisma, mesmo que as dores nas costas mostrem um processo de envelhecimento, ou maturidade, muito ao estilo da máxima do “vinho do Porto”, ou seja, quanto mais velho melhor.

Esse apostar em parcerias não é, de todo, algo de novo na 7ª arte. Paul Newman & Robert Redford, Jack Lemmon & Walter Matthau, Gene Wilder & Richard Pryor, Dean Martin & Jerry Lewis, ou Dan Aykroyd & John Belushi fizeram duetos cinematográficos inesquecíveis, foram “irmãos” de cena,  sempre seguindo a via da imitação ou repetição dos arquétipos das personagens que foram cimentando a construção das suas personas cinematográficas, Por isso mesmo, vemos repetidamente Brad Pitt a mimicar-se a si mesmo com maneirismos que já traz desde “12 Macacos” ou “Se7en”, e Clooney com toda a bagagem de calma e cerebralidade que vimos na maioria dos filmes em que atuou. Por isso mesmo, colocar os dois como rivais que, devido às circunstâncias, têm de unir esforços para um bem comum é apenas mais uma entrada numa enorme playlist dos Bros ou Buddies que o cinema já nos ofereceu.

Em “Wolfs”, os dois agem como a personagem de Harvey Keitel em “Pulp Fiction”, a qual se chamava Mr. Wolf. Quando existe um crime, eles são peritos em “limpar” os locais e afastar qualquer prova que ligue quem os contrata ao crime executado. Naturalmente, estas figuras solitárias trabalham por conta própria, mas aqui são confrontados com duas chamadas individuais que os colocam frente a frente. De um lado, temos uma procuradora da justiça que se envolve com um miúdo num luxuoso hotel em Manhattan. Ocorre um acidente e o miúdo (aparentemente) morre. Em stress, a mulher chama uma “wolf” para limpar a sua passagem pelo local, chegando assim George Clooney em seu socorro. Porém, minutos depois, chega Brad Pitt, chamado igualmente para “limpar” o local pela dona do hotel- que não quer a publicidade de um crime a manchar o seu negócio.

Frente a frente, a dupla é forçada a trabalhar em conjunto para eliminar qualquer evidência do crime, mas, claro está que essa colaboração, de dois homens habituados a trabalhar sozinhos, enche-se de tropelias, especialmente depois de se descobrir na mochila do miúdo uma série de pacotes com drogas, que certamente são de alguém que as vai tentar recuperar.

John Watts, que antes de embarcar em três filmes da franquia Homem Aranha, tinha se destacado com “Cop Car”, protagonizado por Kevin Bacon, requisita as ferramentas do cinema noir mas embuibe nelas um tom de comédia de ação “Bro” que fazem entrar Clooney e Pitt no universo das “malapatas” durante uma única noite, as quais dificultam a concretização de uma tarefa que parece simples e procedimental: livrar-se de um corpo e afastar o cenário de crime. Seguindo as vias habituais neste género de filmes, reviravoltas com fartura alimentam a sequência de eventos, com a dupla de “wolfs”, exponencialmente, a mudar um pouco a sua forma de pensar e agir perante as situações e personagens com que vão lidando, num ato de “renascimento” pessoal, especialmente no dispensar a natureza solitária da profissão. 

No final, temos um filme quase filmado algoritmicamente, quer nas técnicas e planos de filmagem, quer na natureza de transformação das personagens, que não apenas tornam o desenrolar de eventos extremamente previsível, como depositam no carisma de Clooney e Pitt todo o interesse que o filme possa ter. E assim é. É apenas nos atores e na nostalgia do seu carisma que o filme deposita todas as fichas, resultando “Wolfs” num exercício de fascínio nostálgico, mas que não traz absolutamente nada de novo. Nem para o género, nem para os atores.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
wolfs-a-nostalgia-do-carismaTemos um filme quase filmado algoritmicamente, quer nas técnicas e planos de filmagem, quer na natureza de transformação das personagens, que não apenas tornam o desenrolar de eventos extremamente previsível, como depositam no carisma de Clooney e Pitt todo o interesse que o filme possa ter.