À beira da sarjeta afetiva, sob o abalo da morte anunciada do espetáculo no qual brilhou por anos a fio, a corista Shelley é humilhada ao submeter o seu talento para a dança a um encenador que não lhe poupa ofensas. “O que te manteve no palco era o fato de você ser jovem e bonita e isso passou, porque dançar você não dança“, berra o sujeito, com vista a se livrar dela. O estrago que ele causa evoca as patadas que a vida dava em Randy The Ram, lutador vivido por Mickey Rourke em “The Wrestler” (Leão de Ouro de 2008). A diferença estrutural entre Ram e a personagem de Pamela Anderson no áspero “The Last Showgirl” é o facto de ela não se levar por excessos, sobretudo das drogas. Fuma uma vez ou outra, mas está sempre a gastar energias em novas coreografias, a ensaiar, a treinar. Nem a sua vaidade é das mais excessivas, ainda que tenha plena noção da sua destreza. O ponto fraco de Shelley está na crença de que é uma estrela. Os holofotes de um espetáculo de nu, ao estilo Crazy Horse, em Las Vegas, levou-a a crer possuir um star quality que não tem. Quando a sua idade (57 anos) transforma-se em motivo de exclusão, na indústria do entretenimento, as suas habilidades artísticas e o carisma passam a ser ridicularizados, sem dó. O dilema: como conseguir se reinventar?
Essa pergunta adiciona especiarias marxistas à nova longa-metragem de Gia Coppola (“Palo Alto“), que se impõe como um drama social sobre uma Cinderella sem sapatos de cristal e sem príncipe. O idadismo é um dos vilões do argumento de Kate Gersten. O outro é o zeitgeist reformista que mandou para a sucata práticas de entretenimento (não pornográficas) nas quais a nudez era o chamariz. A personagem de maior contundência em cena, o diretor de palco Eddie (Dave Baustista, em sólida atuação), é quem alerta Shelley da erosão a ser enfrentada por ela e colegas bailarinas. “Já não querem mais o que fazemos, não há lugar“, diz ele, que tem um pretérito sentimental imperfeito com Shelley.
Nos dias que estão pela frente dela e de Eddie, a seca profissional há de gerar um deserto de lucros e de esperança para os dois. É da natureza dele aceitar o que vem e se adaptar. A dela, não. A sua essência é de combate, ainda que lute contra moinhos de vento da luta de classes. Enfrenta o rude encenador que a destrata, encara Eddie, peita o mundo, menos a filha, de quem nunca soube cuidar – mais ou menos como também acontecia em “The Wrestler“. Nele, havia o frenesim de linguagem autoral típico de Darren Aronofsky. Gia é mais suave, embebedando-se de desterro apenas quando Jamie Lee Curtis está em cena, grandiosa, no papel da ex-corista Annette. O seu momento de destaque, ao som de “Total Eclipse Of The Heart“, foi um dos pontos mais altos do 72.º Festival de San Sebastián, onde o filme foi projetado em disputa pela Concha de Ouro.
Este conto triste sobre resiliência constrói-se no mesmo terreno onde Ken Loach edifica os seus relatos dialéticos, mas é mais fácil ver “Flashdance” (1983), de Adrian Lyne, na estética de visuais ásperos de Gia do que do ativista inglês. A escolha de Pamela Anderson para o papel central é um acerto, tão forte quanto foi a escolha de Demi Moore no recente “The Substance“, de Coralie Fargeat, também exibido em Donostia. Ambos os filmes, cada uma à sua maneira, falam sobre a decadência de ícones de beleza dos anos 1990. A Pamela da série de TV “Baywatch” perdeu o apelo mediático de outrora. Fora isso, as patrulhas ideológicas da correção políticas castraram a hipótese de uma série daquele perfil existir hoje sem ser acusado de objetificação. É a partir dessa perda, dessa mudança de paradigma, que a presença de Pamela numa trama sobre a finitude simbólica passa a representar um novo zeitgeist, dissecado com alerta por Gia, que é neta de Francis Ford. A sua realização é hábil nas sequências de dança assim como é firme nos planos fechados, nos quais as falas (sempre em desabafos) asseguram fricção e cinemática à narrativa.
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