Sinónimo de salas de projeção cheias num período em que falar de (des)governos, à direita ou à esquerda, era a maior diversão tanto das plateias arthouse quanto dos cinemas populares, o realizador franco-grego Costa-Gavras (“Estado de Sítio“) disse uma vez que “um argumento não filmado é como uma história de amor que não se concretizou“. Para não incorrer num deslize na sua paixão por sets de filmagem e deixar uma boa história sem filmar, o realizador não se deixou vergar pelo peso (imputado pela sociedade) de ter 91 anos e resolveu rodar uma longa-metragem de tom outonal, a fim de “politizar”, como faz desde “Z” (1969), o tema do acolhimento em meio à finitude. “Le Dernier Souffle”, lançado no 72. Festival de San Sebastián, em concurso pela Concha de Ouro, é uma (comovente) investigação sobre as formas de se resistir ao fim iminente – tanto de órgãos e quanto de esperanças. De uma elegância formal contagiante, a trama foi escrita pelo próprio cineasta (com uma acurada atenção a diálogos coloquiais e a falas poéticas) a partir do livro homónimo do médico Claude Grange e do jornalista e filósofo Régis Debray. A partir da prosa deles, editada em 2023, o artesão da imagem que deu ao thriller político uma tónica de espetáculo cria um paralelo entre a agonia dos corpos (ora idosos, ora jovens) com a atual situação social do Velho Mundo em relação a ações assistenciais. Há um continente, em cena, cujas tradições mais arraigadas parecem estar em fase terminal.

Fotografado a partir de uma paleta de cores brandas por Nathalie Durand, em planos curtos, sem aeróbicas da câmara, “Le Dernier Souffle” (“O Último Suspiro”, em tradução livre) aposta na placidez mesmo quando retrata situações trágicas. O seu enredo por vezes flana por uma linha filosófica de plenária, mas foge de didatismos. Em cena, o doutor Augustin Masset (Kad Merad) e o renomado escritor Fabrice Toussaint (Denis Podalydès, inflamável) discutem formas de dar assistência a pacientes teminais. Fabrice está doente e corre perigo. Nas suas conversas, passa-se por um turbilhão de emoções. Em vários encontros, o médico é o guia e o ensaísta o seu passageiro. Os dois são levados a confrontar os próprios medos e ansiedades, num balé poético, em que cada paciente tem o seu drama pessoal narrado, gerando um mar de risos e lágrimas, fintando as convenções do género da ficção hospitalar de séries como “E.R.” ou “Sob Pressão“. Charlotte Rampling encarna a primeira paciente a ser abordada e dá um espetáculo particular no papel de una enferma que anseia por partir em paz, sem que o seu calvário se prolongue.

Há casos como o da jovem vítima de um tumor da mama que não aceita o seu destino e há situações lúdicas, como a de uma pessoa de etnia cigana que festeja a sua ancestralidade às vésperas de partir. Na escuta atenta a diferenças cultuais, Costa-Gavras acolhe um pensador senegalês que critica o método europeu do “health care” que isola os doentes em camas de hospital em vez de aproximá-los da natureza e celebrar as suas vivências longevas. É um debate polifónico. É Costa-Gavras a ser Costa-Gavras: ou seja, a criar panópticos nos quais a situação é vista por múltiplos vértices.

O projeto nasceu em meio a um processo de criação atípico para o realizador, no qual ele passou cerca de dois anos envolvido na escrita de uma narrativa serializada para a TV (ou streaming). A série não veio à luz, ainda, mas fez-se uma película nova coroada por uma dinâmica narrativa diferente do seu habitual frenesim estético, com um histórico de montagem fragmentada, nevrálgica, vide “Mad City“, de 1997. “Le Dernier Souffle” foge de precipitações e vai por uma via mais serena, confiando a rapidez ao fluxo das palavras. É uma reciclagem austera que Costa-Gavras faz do seu modo de narrar que não compromete a contundência do debate moral sobre o sistema de saúde no Ocidente e sobre a solidão daqueles que não se apegam a forças religiosas como uma instância de alívio. Pouco se fala de fé. Fala-se mais de futuro, ou seja, da hipótese de um término de vida sem dor.

Vindo de uma vila do Peloponesso conhecida como Loutra-Iraias, o vencedor da Palma de Ouro de 1982, com “Missing”, conjuga o verbo “morrer” na desinência da coragem. Dá lugar, várias vezes no guião, à frase “O Diabo mora nos detalhes”, destacando as subtilezas que residem mesmo no “apagar das luzes”, entre elas as que cercam a acomodação de feridas.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
le-dernier-souffle-o-sopro-de-serenidade-de-costa-gavras“Le Dernier Souffle” foge de precipitações e vai por uma via mais serena, confiando a rapidez ao fluxo das palavras. É uma reciclagem austera que Costa-Gavras faz do seu modo de narrar que não compromete a contundência do debate moral sobre o sistema de saúde no Ocidente e sobre a solidão