Há uma frase definidora da dimensão política de “Tardes de Soledad” (Tardes de Solidão), dita por um dos integrantes da equipado toureiro peruano Andrés Roca Rey depois dele sair de uma luta brutal: “Os seus colhões são maiores do que esta arena“. Signos do que seria a virilidade na ótica espanhola transbordam pelos frames do ensaio documental do catalão Albert Serra, ao mesmo tempo em que são sutilmente demolidos a cada nova sequência, de planos longos. Vários desses planos fazem close no rosto desse “guerreiro” (termo como é classificado). O signo de “macheza” do seu ofício é contrastado por imagens do seu ritual de preparação para cada tourada, ao vestir collants apertados. São roupas habitualmente associadas ao vestuário feminino. Ele não os veste sozinho, mas com a ajuda de outros homens, que comprimem a veste no seu corpo, apertando-o.
Essa é a primeira ruptura semiótica da produção, que se apoia na plena intimidade do realizador de “A Morte de Luís XIV” (2016) com seu fotógrafo, Arthur Tort. É uma intimidade que se faz mais forte na dilatação do tempo fílmico, na contemplação.
A segunda ruptura se dá com o senso cultural de “espetáculo” que o ofício de tourear ainda carrega, a despeito dos protestos contra a violência aplicada a animais. Cada vez que a câmera de Tort flana pelos movimentos sinuosos de Roca, com o seu tecido vermelho a desafiar uma besta, desnuda-se o culto à brutalidade que cerca essa prática. Como diz o filósofo Jean Baudrillard, “os valores não desaparecem pela escassez e, sim, pelo excesso“. As recorrentes tomadas de “combate” aos touros, no filme, esvaziam (na sua excessividade) a suposta glória que pode haver ali.
Catapultado a um novo grau de prestígio na sua trilha autoral depois de ter a película anterior, “Pacifiction”, eleita como “Melhor Filme de 2022” pela revista “Cahiers du Cinéma”, Serra jamais julga Roca ou a dinâmica da sua profissão. Ele só permite que as imagens falem por si e convidem a juízos, até os mais condenatórios. A sua destreza na condução de uma narrativa fluída – mesmo na reiteração de situações – permite que ele crie um retrato dialético de uma tradição que parece ignorar o senso de empatia. Temas como vaidade e autoafirmação vão e voltam, desenhando um retrato tridimensional de Roca.
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