Calcado em metonímias (no caso, a boa e velha “a parte pelo todo”), figura da linguagem mais do que essencial ao jogo de sedução do erotismo, “Emmanuelle” peca, como dramaturgia, por uma obviedade indisfarçável, o que conduz a narrativa a um desfecho esperado desde o primeiro minuto, quando se percebe a incapacidade da sua heroína para chegar ao êxtase. Peca uma vez mais pela frieza, numa estrutura cerebral que exuma a prática do voyeurismo com um distanciamento cirúrgico. Essa frieza (formal, inclusive) não impede que a realizadora Audrey Diwan extraia da sua protagonista, Noémie Merlant, a complexidade esperada de uma heroína emancipada, cuja jornada pela Ásia se isenta de exotismos e se banha fartamente em autoafirmação. Não há qualquer traço do romantismo que havia no “Emmanuelle” original, de 1974, no percurso da personagem atual, uma vez que o amor é uma palavra proscrita pelo filme de abertura da 72ª edição do Festival de San Sebastián, incluído entre os 16 concorrentes à Concha de Ouro.

Vencedora do Leão de Ouro de Veneza, em 2021, por “L’Evénement”, Diwan alega nunca ter visto na íntegra a longa-metragem homónima do fotógrafo e escultor francês Just Jaeckin (1940-2022), encarado nas últimas cinco décadas como um dos pilares do porno chic ou soft porn. A sua arrecadação mundial beirou os 20 milhões de dólares (uma fortuna para a época), abrindo uma franquia alimentada por seis outros filmes para cinema e sete telefilmes. Esse fenómeno transformou a sua atriz principal, a holandesa Sylvia Kristel (1952-2012), numa estrela e num sinónimo de libido em tempos em que não se falava de sororidade. Diwan explicita nos créditos que o guião escrito por ela (com Rebecca Zlotowski) é baseado apenas na figura central do romance best-seller filmado por Just. Trata-se um livro publicado em 1967 pela franco-tailandesa Marayat Rollet-Andriane (1932 – 2005), conhecida como Emmanuelle Arsan. O livro vendeu milhares de cópias e a adaptação audiovisual inicial repetiu esse feito nas bilheterias, em meados dos anos 1970, ao ponto de ter somado 8,9 milhões de ingressos vendidos apenas em França.

Na prosa de Arsan, Emmanuelle se aproxima do Éden conforme se submete a uma série de práticas sexuais diversas, sob o combustível de uma dupla paixão, dividindo-se entre um homem e uma jovem. “Apaixonamento” é um termo que Diwan descarta ao estruturar o arquétipo vivido (com carisma pleno) por Noémie, preferindo aproximá-la do interesse pelo enigmático, pelo insofismável. A sua Emmanuelle é uma inspetora de qualidade a serviço de uma rede hoteleira que viaja para Hong Kong a fim de avaliar os serviços de uma hospedaria luxuosa, gerida com mão de ferro por uma administradora encarnada por Naomi Watts. Lá, encontra um oceano de bons serviços – inclusive o de acompanhantes de luxo – mas foca os seus olhos num hóspede misterioso, o engenheiro Kei (Will Sharpe), especialista em diques para conter inundações. Metáfora mais óbvia para uma trama sobre torrentes sexuais não existe.

Um jogo de sedução inusitado (em via de mão única) trava-se entre Emmanuelle e o rapaz, que nunca dorme uma noite sequer no hotel que ela inspeciona, embora sempre se hospede lá. O interesse dela em saber se os desaparecimentos dele são insatisfação levam-na a explorar outras geografias – de Hong Kong e de si.

Em nenhum momento, Audrey olha para aquele contingente territorial com alteridade excludente, e a fotografia austera de Laurent Tanguy ajuda-a nisso. Não é um enredo à la Discovery Channel, que explore a noite asiática por um viés antropológico científico. O que Emmanuelle desconhece ali ela também desconheceria no Velho Mundo, de onde vem. A questão é aplacar o senso de mistério que Kei gera. Nesse processo, a película impõe-se mais como um ensejo investigativo, detetivesco, próximo do thriller erótico americano dos anos 1990 (tipo “Jade” ou “Body of Evidence”), do que como um tratado antissexista. De toda a forma, propõe uma celebração da liberdade do corpo, assunto por excelência de Diwan.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
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