O que fazer quando se está a trabalhar no espaço sideral, o Planeta Terra explode e as hipóteses de ser o último humano vivo são uma mais que provável realidade? E o que fazer, nessas circunstâncias, quando se descobre, algures no espaço, uma voz humana que nos faz crer que, afinal, não estamos sozinhos neste fim dos tempos?

É essa a premissa arrojada, ainda que derivativa, a que o realizador ucraniano Pavlo Ostrikov se dedica na sua primeira longa-metragem, filmada com tanto de existencialismo como de romantismo. Referências a 2001: Odisseia no Espaço estão um pouco por todo o lado neste U Are the Universe, um objeto cinematográfico que estreou mundialmente no Festival de Toronto em 2024 e está agora em exibição na 3.ª edição do MyMetaStories.

É verdade que estamos no espaço — assim o dizem a linguagem e as imagens cinematográficas que Pavlo impõe, primeiro através de uma curta introdução em forma de cinema de animação, depois num live-action em direto da nave deste sobrevivente do apocalipse. Mas, na realidade, podíamos estar apenas num palco teatral, já que, na maioria do tempo desta bem-humorada comédia romântica existencial, estamos dentro da Obriy, uma nave de carga onde um astronauta chamado Andriy (Volodymyr Kravchuk) transporta resíduos nucleares da Europa de Leste para Calisto, uma das luas de Júpiter.

Na sua nave, com diversos equipamentos que o ajudam a passar o tempo e a escapar, o máximo possível, à solidão, a sua única companhia é um computador robotizado chamado Maxim (voz de Leonid Popadko), que tem como missão protegê-lo de qualquer problema. Embora tenha piadas para cada ocasião — em especial quando o solitário Andriy vacila psicologicamente —, Maxim tem dificuldades em explicar-lhe que a Terra explodiu e que, provavelmente, ele é o único sobrevivente da espécie humana.

Sozinho no espaço, num universo alegadamente já sem outros humanos com quem interagir, Andriy acaba por ser surpreendido na sua Voyage, Voyage por uma voz feminina, em francês, que diz estar numa outra nave nas proximidades de Saturno, iniciando, assim, uma relação à distância que progressivamente vai ganhando tal força — na lembrança da importância do contacto humano — que o impele a gastar os últimos resquícios de energia da sua nave para encontrar a pessoa por trás dessa voz, por quem, derradeiramente, se apaixona.

Seja na economia da produção, seja no trabalho absorvente do único ator em cena, seja no humor seco utilizado, Pavlo Ostrikov vai conseguindo surpreender o espectador dentro de uma narrativa já usada em diversas circunstâncias: a do homem sozinho e encerrado num espaço que o impede de contactar com alguém — fosse esse lugar uma qualquer ilha perdida que serve de refúgio (e prisão) após um naufrágio; uma casa isolada que nos defende de algo num mundo pós-apocalíptico; ou uma nave espacial.

E, no meio de uma amálgama de referências (além do filme de Kubrick, Robinson Crusoé também é chamado à equação), desconstruções existenciais (do isolacionismo cínico à necessidade de socializar) e o requerer do instinto natural de sobrevivência e reprodução, que sempre movimentou os processos bioquímicos do Homem — aquilo a que chamamos, comumente, “emoções” e “sensações” —, Ostrikov consegue retratar, com tanto de preciso como de pessoal, a eterna luta do Homo sapiens ao longo da sua existência, e que agora encontra nele tanto o vilão como o herói capaz de declarar — ou evitar — a sua extinção.

*Crítica originalmente escrita em setembro 2024

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
u-are-the-universe-os-ultimos-dias-de-um-condenado-a-extincaoOstrikov consegue retratar, com tanto de preciso como pessoal, a eterna luta do Homo Sapiens ao longo da sua existência, e que agora encontra nele tanto o vilão como o herói que pode declarar ou evitar a sua extinção.