Carine Tardieu abordou a infância e a adolescência, na sua intersecção com o mundo adulto, nos seus primeiros trabalhos (Dentes de Leão; Só para ter a certeza), aventurando-se, anos depois, pelo terreno de relações de personagens com mais idade, como se viu em “Jovens Amantes”, com atores como Melvil Poupaud e Fanny Ardant em ebulição.
Agora, com “L’attachement”, ela regressa aos seus primeiros tempos através de um drama que se mascara de comentário profundo sobre a natureza da família e a criação de laços familiares, longe da imposição sanguínea, mas que acaba por cair no erro de tentar ser tão “feel good” que não se importa de cair nos mais diversos clichês, como o da mulher solteira, feminista e com carreira, distante de qualquer típo de relação e vínculo emocional, mas que tem nela um instinto solidário que se torna, quando preciso, cuidador; e o estereótipo do homem “às aranhas”, que sem um apoio no feminino não consegue lidar com uma tragédia e educar os filhos.
Baseando no livro “L’Intimité”, de Alice Ferney, “L’attachement” começa com uma mulher, a entrar em trabalho de parto, a bater à porta da sua vizinha, Sandra (Valeria Bruni Tedeschi), e a pedir que tome conta do seu filho pequeno, Elliot, enquanto segue apressadamente para o hospital. As coisas correm (muito) mal: o bebé nasce, uma menina, mas a mãe morre durante o parto. Será Alex (Pio Marmai) a ir buscar Elliot e a informar a vizinha e a criança, que biologicamente não é sua, da tragédia.
Nesse instante de explosão emocional nasce um triângulo de afetos (Alex-Sandra-Elliot), que será acompanhado pela cineasta com a chegada de novas personagens, como Emilie (Vimala Pons), que se envolve com o homem, mas que a realizadora trata apenas como uma “rebound girl” num processo de interiorização do luto por parte de Alex; e de Davide (Raphaël Quenar), o pai biológico de Elliott, que também se junta a uma enorme família ao serviço da educação e acompanhamento de duas crianças, numa visão – explícita no título do filme – da teoria de John Bowlby de que “o apego em recém-nascidos ocorre em vários estágios e se solidifica de acordo com a qualidade, frequência e estabilidade dos cuidados que recebem”.
O apego e o poder dos vínculos, permeando sentimentos que navegam pelo trauma e solidariedade, marcam a nova obra de Tardieu, que entrega ao espectador o seu filme agarrado à cronologia da recém nascida. São as suas marcas temporais (1 dia, 1 semana, 1 mês…e por aí fora) que nos vão situando para o avançar de uma narrativa terna e com bom coração, mas que se acha mais profunda e menos manipuladora do que realmente é.





















