Envolvido num litígio sobre os direitos de autor do guião, o Tribunal de Veneza travou, inicialmente, a exibição do filme “Antikvari” (The Antique), de Rusudan Glurjidze, na Giornate degli Autori, sendo apenas autorizada a sua apresentação a três dias do festival terminar, ou seja, a 4 de setembro.
E ainda bem que o filme viu a luz dos projetores no Lido, pois ao contar a história de duas gerações através de várias personagens, o filme mostra, paralelamente, como o estado russo, sob a liderança de Putin, em 2006, decidiu deportar ilegalmente os georgianos do seu território, em consequência das tensões latentes entre os dois países.
No centro desta história está Vadim (Sergey Dreiden), um idoso russo que cortou relações com o filho e quer vender o seu enorme apartamento no centro de São Petersburgo, cheio de objetos antigos. O preço não é caro, mas a razão para isso está no facto de Vadim querer continuar a viver lá. Depois de um casal fugir à bizarra proposta, que até assusta a agência imobiliária envolvida na venda, uma jovem de nome Medea (Salome Demuria), envolvida com um rapaz chamado Lado (Vladimir Daushvili), aceita as condições do negócio proposto, passando a dividir o espaço com o idoso. Não é uma convivência fácil, como Medea, uma georgiana, vai perceber que Vadim é o menor dos problemas com que tem de lidar.
Usando uma palete de cores frias – primam azuis e cinzentos – num ambiente seguro para quem é russo, mas hostil para quem é da Geórgia, a segunda longa-metragem de Rusudan Glurjidze faz um delicado estudo de personagens com diferentes ambições. Por um lado, na vertente georgiana, olha “para as esperanças e aspirações dos migrantes num mundo incerto, mas também ilustra as formas indiscriminadas e cruéis com que a política descarrila as vidas humanas”. Por outro, através das decisões políticas de Putin, nas ações das forças policiais e nas palavras de Vadim, olha para os russos com claros sinais de xenofobia, em particular com os “escurinhos” (darkies), como o idoso lhes chama. Numa das cenas mais marcantes, Lado encontra num autocarro uma norte-americana, dizendo que é do estado da Geórgia, EUA. Ora, os antigos inimigos do regime comunista soviético tornaram-se entretanto amigos, enquanto os antigos companheiros da URSS, os georgianos, tornaram-se os indesejados.
Ainda assim, existe uma diferença das palavras que Vadim evoca para as ações oficiais do estado e, numa das melhores cenas do filme, Vadim está numa esquadra repleta de georgianos prestes a serem deportados. Ele decide questionar as autoridades com o que está a acontecer, com aquela postura sem filtros que só os idosos e crianças conseguem ter perante a autoridade: Se não estamos em guerra, que movimentação é esta?. Uma revolta? A deportação para campos de trabalho forçados (Gulag)? Uma repressão em massa de uma minoria étnica? A resposta que recebe da agente de serviço é um “vá para casa” senão ainda vai preso, mostrando um distanciamento e hierarquia entre as esferas de poder e o cidadão comum, não diferente de nenhum sistema que a Rússia tenha vivido nos dois séculos anteriores: czaristas, comunistas e “democratas” à moda de Putin.
E poder é a chave do filme, seja dentro da casa de Vadim, seja na casa de Putin, que é toda a Rússia, seja na forma de um velho armário que repousa numa casa de restauro. Se esse móvel serviu no passado como prisão e castelo para o filho de Vadim, agora ele será derradeiro refúgio para Madea escapar ao destino dos seus compatriotas.
Nisto, o cineasta georgiano assina um belo segundo filme, onde a palavra antiguidade serve igualmente para ligar o passado ao presente político da Rússia e da Geórgia, e como uma relíquia do antigamente tornou-se um elemento indesejável de se ter por perto.




















