Ao longo de uma já extensa carreira, ainda iniciada nos anos 90, o sueco Göran Hugo Olsson tem produzido e realizado alguns dos documentários mais interessantes do novo milénio, daqueles que não só “sumariam” batalhas sociais e políticas, mas efetivamente contribuem para a reflexão e discussão do passado, com um olho no presente e outro mais além dele.
“The Black Power Mixtape 1967-1975”, que reúne imagens feitas por um grupo de jornalistas suecos, na documentação do Movimento Black Power nos Estados Unidos, é um objeto de singular valor, tal como “A Respeito da Violência”, “Am I Black Enough for You” ou “London 79”. Temas como racismo, violência, colonialismo e extremismos, com uma eterna luta de classes a atravessar todos esses temas, fundem-se para contar a história de temporalidades precisas, envolvendo-nos num emaranhado de poder e hierarquias que criou (e cria) desigualdades de toda a ordem. Todos estes temas repetem-se em “Israel Palestine on Swedish TV 1958-1989”, exibido no Festival de Veneza fora de competição, em que o cineasta embarca numa jornada semelhante a “Black Power Mixtape” para nos contar a história de um conflito, não como ele objetivamente foi, mas como a televisão sueca o reportou durante 41 anos.

São pouco mais de 3h25 de filmagens reunidas – muitas delas inéditas – que nos dão uma perspetiva de um problema complexo, onde religião, cultura, civilização, ideologia e política se fundem, e desencadearam uma “Questão Palestina” sem fim à vista, principalmente depois da denominada Guerra dos Seis Dias (1967).
“Não existe outra entrada na pesquisa dos arquivos da SVT (televisão sueca) que dê tantos resultados e filmagens como “Israel/Palestina“”, explica o realizador na nota de intenções do seu documentário, mostrando que teve de lidar com milhares e milhares de horas de filmagens, compactadas em três horas e meia que passam sem se dar por isso. Um exercício hercúleo, mas absolutamente satisfatório, que além de nos contar factos ocorridos ainda antes da fundação do estado de Israel, e já depois da sua criação, mostra a forma como o jornalismo, os comentadores e até pessoas comuns da época, olhavam para uma “questão”, na mente global, insolúvel desde a sua génese.
Nos primeiros momentos, em particular nos primeiros 10 anos da criação de Israel, nesta visão sueca dos acontecimentos, é evidente um olhar de louvor às maravilhas da criação, uma nação que se começou a formar a partir de um olhar histórico/geográfico sobre sagradas escrituras, mas que se materializou apenas no pós 2ª Guerra Mundial, após uma divisão territorial vinda de fora (força colonial), em 1948. Fala-se de luta, resistência, mas também de avanços tecnológicos que até permitem levar água do norte de Israel ao árido sul,
Incitados a acreditar que a Palestina seria um território árabe, que nunca se concretizou além do papel, os árabes atacaram o pequeno espaço entregue aos judeus, que mais tarde viria a expandir-se e tornar-se no estado de Israel, com massacres como o de Deir Yassin (1948) a serem essenciais para o ato de conquista, segundo uns, ou de(re) afirmação nacional, segundo outros.

Um crescimento territorial que se tornou exponencial após a Guerra dos Seis Dias (1967), quando Egito, Jordânia e Síria foram esmagados e repelidos de forma humilhante, originando uma debandada ainda maior de refugiados, e reafirmado na guerra do Yom Kippur (1973).
Com a violência, o medo de extinção e isolamento numa região cercada por países árabes, os princípios básicos da fundação de Israel, de igualdade e solidariedade, começaram a desvanecer-se, rendendo-se ao liberalismo que comandava o ocidente. O sonho da nação de Israel, mesmo vista na ótica das duas correntes primordiais do sionismo, o do território físico, mas principalmente espiritual, transformou-se numa mera normalização da criação de nações, sem distinções da de outros países, onde a conquista agarrada a textos sagrados com milhares de anos, definia o presente.
Vozes condenatórias internas levantaram-se, como Israel Shahak, professor e membro de um grupo de defesa dos direitos humanos israelita que não teve medo em usar a palavra “nazificação” para caracterizar o que sociedade israelita se estava a tornar sob a liderança da Golda Meir. “Israel não pratica a lei de igual forma aos seus cidadãos. Prefere pessoas de certa raça, religião e nacionalidade. Nós, judeus, nunca iriamos tolerar essa perseguição a uma minoria noutro país, por isso não a podemos tolerar no nosso. A minha maior divergência com a primeira ministra Golda Meir vem dela ter dito, há seis semanas ou 2 meses, que estava preocupada com quantos bebés judeus ou árabes nasceram na noite passada. E ela diz isso e apelida-se socialista. Não só chamo a isso uma opinião reacionária, mas comparo-a, e não tenho medo do dizer, com ados nazis. Não os nazis dos anos 40, mas as ideias racistas e nazis dos anos 20 e 30. (…) Acredito que a nossa, a minha sociedade, está num processo de nazificação.”

Seria (e ainda é) uma heresia, rapidamente caracterizada de “antissemitismo”, qualquer pessoa não judia fazer uma afirmação desta, mas Shahak fê-lo, escolhendo criteriosamente as palavras. E as “palavras” e as terminologias são fundamentais na “Questão Palestina”, venham elas de escrituras sagradas, venham de ideologias internas (sionismo e as diferentes correntes), das ideias marxistas ou dos Panteras Negras Israelitas, ou até mesmo das leis nacionais e internacionais de qualquer estado, ocidental ou não. Se pensarmos bem, ainda hoje a sociedade e a política usam termos diferentes quando apoiam ou condenam grupos de revolta contra o estabelecido. Se estamos do seu lado, chamamos os grupos de guerrilheiros, como fizemos com o caso de Timor, por exemplo. Se estamos contra as suas ações e ideologias, então o termo usado é terroristas (ou até insurgentes). Assim funciona um mundo onde a comunicação importa, não apenas a nível terreno, mas nas altas esferas dos governos, que criam listas de grupos terroristas e grupos de resistência, haja ou não violência e luta armada envolvida. Por isso mesmo, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), de Arafat, foi saltando de lista em lista ao longo da história, o mesmo acontecendo com o Irgun, organização judaica vista pelo novo estado de Israel como grupo de resistência colonial, mas pelos britânicos, que dominavam a região, como terroristas. Olhando para trás, Suharto e o seu regime ditatorial também viam Xanana Gusmão como um terror a combater.
Por isso mesmo, a “palavra” e o seu significado ganha maior relevo ao vermos este filme de Göran Hugo Olsson, pois só em 1969 a palavra “Palestino” aparece pela primeira vez, com um antigo “terrorista”, transformado em primeiro ministro de Israel, Menachem Begin, fundador do Likud (do atual Netanyahu), a pegar na palavra e a descrever-se como um cidadão da Palestina. E depois do termo “Palestino”, surge a “Questão Palestina”, que a partir dos anos 80, com a paz estabelecida entre Israel e Egipto, se desvanece, abrindo-se uma nova frente de combate, no Líbano, com novos capítulos ainda hoje inacabados. Por seu lado, palavras como antissionismo e antissemitismo transformaram-se num campo de batalha, com os detratores de Israel a usarem o primeiro, enquanto os segundos costumam englobar qualquer crítica a judeus ou Israel, como um sinónimo. Atacar Israel é atacar os judeus, dizem uns; atacar Israel não é atacar os judeus, mas o sionismo, dizem outros. O que sobra daqui é uma guerra em toda a escala, uns e outros. Se no terreno a força das balas faz vítimas, no campo das palavras o diferente uso e terminologia usada coloca fações em diferentes trincheiras.
Desafiando e mudando as convenções de como a História é escrita, mas também contada e percecionada no exterior, “Israel Palestine on Swedish TV 1958-1989” mostra o quanto a ascensão do estado israelita está entrelaçado com a luta palestina pela independência. E nisto, Göran Hugo Olsson entrega mais um filme imperdível e absolutamente urgente dada a guerra que ainda permanece. Uma guerra bélica, que se sente na pele e no território, mas igualmente semântica, numa construção abstrata de identidades.




















