Já com um conjunto robusto de obras filmadas ao longo de duas décadas, Fabrice Du Welz começa a despertar a necessidade de uma redescoberta e re (posicionamento) do seu cinema num contexto quer global, seja referente à História do Cinema do novo milénio, seja localmente, no dito cinema belga. Responsável pela chamada trilogia das Ardenas, que inclui “Calvaire”, “Aleluia” e “Adoration”, além de filmes como ”Vinyan” e “Inexorable”, o cineasta surgiu este ano nas salas de cinema a duplicar. Primeiro foi “La passion selon Béatrice” a invadir Locarno, agora é o seu “Maldoror”, que se estima ser o primeiro filme de uma nova trilogia em torno dos “fantasmas belgas“, a atordoar as audiências de Veneza ao mexer numa ferida ainda por cicatrizar, principalmente no seu país, a Bélgica: o célebre, pelas piores razões, “Caso Marc Dutroux”, um assassino e violador que liderava uma rede pedófila que sequestrava crianças, em meados da década de 1990.

Influenciado por “Zodiac” de David Fincher e “Era uma Vez…em Hollywood” de Quentin Tarantino, bem como por “Memories of a Murder” de Bong Joon-ho, Du Welz traz um próprio sobre um caso que acredita “ainda não estar encerrado”, além de uma visceralidade caracterizada por uma das suas temáticas frequentes: a obsessão. Obsessão essa que invade a personagem de um polícia, Paul Chartier (Anthony Bajon), que entra numa espiral infernal de intuições e observações, que todos menosprezam, quando começa a investigar o desaparecimento de duas meninas em Charleroi. É a partir do depoimento corriqueiro de um pequeno criminoso, conhecido pelas autoridades pelas suas “mentiras”, que o instinto de Chartier vai ser atiçado, sendo guiado até um “redneck” belga com uma figura (palavras do realizador), que se sente ser apenas uma ferramenta ao serviço de algo maior.

Introduzindo camadas de histórias do passado na figura do seu polícia, de forma a contextualizar a sua ação e evolução de pensamento, além de criar um romance que se vai desvanecendo na mesma dose que a obsessão do homem em encontrar as meninas desaparecidas aumenta, Du Welz é apoiado por um trabalho na direção de fotografia notável e uma montagem de cortes rápidos que nunca nos deixam respirar. Além disso, o cineasta e argumentista decide colocar o espectador á frente das descobertas do próprio Chartier, criando um outro tipo de tensão e nervosismo em quem assiste, não pela descobertas feitas por si, mas nas de Chartier. O espectador é assim transformado no voyeur das conquistas e desaires do polícia, bem como os desastres frequentes da ação das diferentes forças da lei belgas, que mal comunicavam e competiam entre si, antes do estado se tornar federal já nos anos 2000.

Claro está que para esta jornada, quer a intensidade e fragilidade que Anthony Bajon imprime a Chartier, quer a violência e amoralidade exigida a Sergi Lòpez no seu Marcel Dedieu, são os pilares que sustentam com robustez um filme, que derradeiramente não se movimenta pela tradicional separação binária de bem e mal, mas mistura os dois nos seus heróis e vilões.

E ao fazer isso, Du Welz faz um dos seus filmes mais interessantes e conseguidos, revelando ser um daqueles cineastas que, além de ao longo dos tempos ter ganho maturidade e sentido estético, não tem medo em mexer em feridas e traumas aparentemente inultrapassáveis.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
maldoror-fabrice-du-welz-lida-com-o-trauma-marc-dutrouxDu Welz faz um dos seus filmes mais interessantes e conseguidos, revelando ser um daqueles cineastas que, além de ao longo dos tempos ter ganho maturidade e sentido estético, não tem medo em mexer em feridas profundas e traumas aparentemente inultrapassáveis.