“Aqui em França, não se fala muito sobre a guerra no Sudão”, lamenta a realizadora franco-tunisina-marroquina Hind Meddeb logo no início de “Sudan, Remember Us”, um documentário que, através de diferentes vinhetas temporais, mostra a resistência de jovens sudaneses, com sonhos de democracia, entre a queda do ditador Omar al-Bashir, em 2019, e a eclosão da guerra civil, em abril de 2023, um confronto que opõe Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido paramilitares.
“Sudan, Remember Us” arranca com uma frase inscrita numa placa de metal, “O sangue dos heróis é o meu sangue”, enquanto um saco plástico esvoaça numa Cartum deserta, repleta de poesia e mensagens de intervenção e esperança pelas paredes, mas ausente de vida nas suas desérticas ruas. A acompanhar-nos nestes primeiros momentos, temos uma chamada de voz entre Meddeb e Hind, uma das mulheres que ela vinha acompanhando há quatro anos, onde o horror da perseguição instaurada no país após o início do conflito de 2023 está exposto, bem como a forma como a guerra afeta a vida de todos e como se deve começar a aceitar deixar tudo para trás. “Não sei por onde começar”, diz a cineasta, começando a narrar a sua experiência presente como estar num estado sob o efeito de drogas pesadas. Só aí, ela retrocede no tempo 4 anos, até 2019, quando, após meses de protestos contra o regime, que governou o país com punho de ferro por 30 anos, al-Bashir renunciou.
A partir daí, munindo-se de imagens e sons de arquivo, bem como entrevistas efetuadas a muitos sudaneses, Meddeb capta os sonhos e ambições, mas também o peso do drama do passado. Relatam-se episódios de violência, massacres, e intermináveis guerras de classes, num jogo de opressores e oprimidos, onde as mulheres ganham particular atenção. Palavras e atos de resiliência amontoam-se, sempre com a consciência que um novo golpe de estado pode deitar tudo a perder. Mas não há, no discurso destes homens e mulheres, ainda que cautela, derrotismos à partida, pois – como a cineasta diz – o três é um número da sorte em Marrocos e esta foi a 3ª Revolução de um País que, tal como tantos outros, sofre do penoso calvário de lutas internas pós coloniais e da herança das suas fronteiras do Sudão Anglo-Egípcio (1899 e 1956).
Duro de assistir, mas construído com muita sobriedade, simplicidade e resistência, “Sudan, Remember Us” não é tanto sobre sonhos perdidos, mas sonhos em suspenso, porque a luta pela sua concretização está longe de ter terminado.



















