Partindo de uma ideia dos atores Hiroki Sano e Yoshinori Miyata, que disseram ao cineasta que gostariam de fazer um filme em que interpretassem as suas próprias personagens, a que se acrescentou a morte súbita de um amigo do liceu com trinta e poucos anos, que o inspirou a chamar o luto à equação, o japonês Kohei Igarashi construiu o seu “Super Happy Forever”, filme, que abriu a competição da 21ª Giornate degli Autori do Festival de Veneza.
Com o peso e dor da perda a pesar na alma, Sano (Hiroki Sano) regressa com o seu amigo Miyata (Yoshinori Miyata) ao local onde, cinco anos antes, conheceu a sua paixão, Nagi (Yoshinori Miyata). Se esta primeira parte do filme é um poço sem fundo de angústia e depressão, nas segunda metade da obra visitamos o mesmo local, uma cidade costeira no Japão (Izu), e observamos como Sano e Nagi se conheceram no hall de um hotel, se perderam em conversas com tanto de fortuito como pessoal, arranjaram simbologias e marcas pessoais para um flirt que se transforma em algo mais (uma música, um boné vermelho) e embarcaram num romance onde não vislumbramos um único beijo, carinho físico ou toque mais pessoal. Toda essa paixão que os começa a bafejar é nos entregue pela força das palavras mundanas, expressões e gestos de elevada subtileza, podendo – nesta tal segunda parte – o espectador ser levado a outras paixões que se forma num único dia (ou noite), como a da trilogia “Before” de Richard Linklater.
Mas não vamos esquecer o drama da primeira metade do filme, que a bem ver é situação mais atual, onde a devastação da morte súbita da mulher transforma Sano numa figura desiludida, apática, irascível e muitas vezes irracional, caindo em saco roto qualquer tentativa do seu amigo em o tirar do fundo do poço com mensagens de esperança e confiança no futuro.
O sabor agridoce que este filme nos deixa, ora de entusiasmo e ternura no embrião da paixão, ora de desespero e perda de sentido para viver, chocam de frente com o título do filme, “Super Happy Forever”, embora a memória dos tempos idos possa despertar uma estranha alegria que agora se chora perder. E nesta construção de um amor, que sobrevive à morte de uma das partes, Kohei Igarashi entrega um filme com muitas emoções dispares, temporalmente invertidas na linearidade da história, a que pequenas histórias de personagens secundárias trazem cor e uma relevância subliminar à fragilidade da vida.
Um interessante e sentido regresso de um cineasta que deu nas vistas em Locarno, na Cineasti del Presente, em 2014 com “Hold Your Breath Like a Lover”.




















