Devotado nos últimos anos a séries de streaming, como “Cidade Invisível” e “How To Be A Carioca”, o brasileiro Carlos Saldanha escancarou para si as portas de Hollywood, onde entrou pelos corredores da animação, numa parceria com Chris Wedge na franquia “A Era do Gelo”, em 2002. Mais do que faturar milhões com os seus filmes sempre multicoloridos, de diversão ligeira, ele teve a habilidade de lapidar um estúdio, a Blue Sky, que, em parceria com a Fox, foi capaz de enfrentar a hegemonia Disney e (em parte d)a DreamWorks, na concorrida da seara do entretenimento infantil. Assumiu a ecologia como um dos assuntos centrais do seu cinema (ao se destacar por “Rio”, de 2011) e fez da amizade a argamassa temática da sua filmografia, sempre trabalhando com elencos estrelares nas vozes. Concorreu ao Oscar, primeiro entre as curtas animadas, com “Gone Nutty”, há 20 anos, e depois com “Ferdinando” (2017), a maior expressão da sua delicadeza ao lidar com questões como o amadurecimento e solidão. O dois assuntos mostram-se centrais no seu regresso às telas, agora pelas vias da live action, com “Harold and the Purple Crayon”, uma aventura agitada, mas carente de lapidação no seu guião.
É difícil encarar esse diálogo do cineasta com a literatura para miúdos de Crockett Johnson (1906-1975) sem pensar em “Big”, de 1988, sobretudo pela forma como o protagonista, (um empolgado) Zachary Levi, emula a atuação de Tom Hanks no clássico da década de 1980. Essa parentela cinéfila inevitável com o sucesso de Hanks expõe traços residuais da formação de Saldanha como realizador, despertando alusões que vão além de seu conhecimento sobre desenhos animados (e as suas técnicas). Ao mesmo tempo, a lembrança de “Big” aproxima “Harold e o Lápis Mágico” (título em Portugal e no Brasil) das narrativas do desapego, centradas nas angústias em relação a acomodação de perdas e de escolhas difíceis.

Publicado em 1955, “Harold and The Purple Crayon” celebra a força da imaginação como matéria plena da invenção. Um giz de cera feito do poder de imaginar concede a Harold o poder da criar o que quiser e de avançar por dimensões. A sua primeira aparição em cena é animada, o que mantém Saldanha numa condição anfíbia, perto de seu habitat de berço. A fotografia do mexicano Gabriel Beristain (de “Beekeeper”) logo se faz brilhar com todo o seu diapasão de cores dionisíacas, no momento em que Harold passa para o mundo dos humanos, na forma de Levi.
Essa transformação dá-se de modo abrupto no roteiro. Logo nas primeiras sequências, o jovem Harold sente o desejo de conhecer o seu criador, que fala com ele por meio da narração dos seus livros (na voz de Alfred Molina). A fim de conhece-lo, o rapaz usa o giz mágico para abrir uma passagem secreta para a Terra, e vem cercado dos amigos, Moose (o Alce), vivido na forma de gente por Lil Rel Howery, e Porco-Espinho (Tanya Reynolds, um tanto sem eixo na sua atuação). Entre gentes de carne e osso, em busca do seu inventor, Harold cruza com um menino órfão de pai, Mel (Benjamin Bottani), e com a mãe, Terry (Zooey Deschanel, que rouba o filme para si a cada aparição). Com os dois, a personagem de um mundo de plena fantasia vai ter que aprender a crescer, sobretudo no confronto com o escritor repleto de megalomania Gary, (Jemaine Clement, ator assinatura de Saldanha).
Há momentos lúdicos, de puro encantamento, nos quais o filme explora as múltiplas possibilidades imaginativas do seu herói, com destaque para duas sequências: a criação de uma pista de skate encantada e um voo rasante de um avião fantástico. O que falta à longa metragem é a maior depuração da psique do protagonista e de figuras periféricas, o que dá a Terry (uma personagem repleta de contradições, no seu realismo rascante) maior relevo em cena.
Apesar disso, a película demonstra a habilidade de Saldanha no trato com atores e com as demandas que as narrativas live impõe. Uma vez mais, ele se destaca como um cronista de travessias, de jornadas nas quais um efeito externo obriga pessoas a sair do seu lugar de conforto e migrar.



















