Há filmes com os quais nos identificamos imenso e nos fazem perguntar a nós mesmos se estamos a fazer o que realmente gostávamos, se estamos a viver como desejávamos. “I’m Not Everything I Want to Be”, 2024, da realizadora checa Klára Tasovská, 1980- (primeira longa-metragem que ela realiza sozinha), é um destes.
A protagonista, a fotógrafa checa Libuše Jarcovjáková, apelidada de “Nan Goldin da Checoslováquia”, vivia em Praga, nos anos 1970, num ambiente ideológico incómodo onde não podia expressar livremente a sua sexualidade e nem mesmo trabalhar como fotógrafa. O ousado e interessante documentário ensaísta, realizado por Klára, tem um trabalho de montagem e som brutal. O filme é construído na montagem pelas mãos e olhar da realizadora, do montador e do design de som, com as imagens estáticas reenquadradas e animadas de forma SUPER CRIATIVA e INOVADORA (confesso que não me lembro de ter visto algo similar em outros filmes, e já vi inúmeros filmes ao longo da vida), onde o som e a luz num contraponto com o vasto arquivo fotográfico feito por Libuše ao longo da sua arriscada e libertária existência, dá vida aos seus sentimentos e aqueles das pessoas que cruzaram a sua vida, no ritmo do momento em que as coisas aconteceram, ora lentos ora rápidos. Efeitos sonoros surpreendentes que atualizam o passado do que está sendo mostrado. Um exemplo, é o ruído ambiente da fábrica onde Libuše trabalhava, que conjugado com as imagens dos seus colegas, em situações precárias, denunciam as condições trabalhistas do comunismo soviético. Há também cenas em que o movimento criado nas imagens pelo som, nos fazem dançar e reviver as emoções que a fotógrafa experimentava nas noites libertinas.
Libuše permitiu a Klára aceder aos diários que escreveu desde a sua adolescência e todas as imagens que registou, explorando de forma criadora (isto é um conceito bergsoniano;) todo o arquivo da sua vida, possibilitando assim, entrarmos no íntimo desta mulher que ousou ser ela mesma, sempre questionando a si própria e tudo que a rodeava. Não há imagens filmadas no documentário de Klára; são imagens estáticas que ganham um desconcertante e intenso movimento que nos levam para o seu interior, para dentro do que Libuše experimentou em seu corpo e mente.
A realizadora relatou numa entrevista que “fazer um filme a partir de fotos é tão complexo e demorado quanto fazer um filme de animação”. Quem conhece os bastidores do cinema sabe que, de facto, é mesmo desafiante. A vida da fotógrafa era constantemente instável, não apenas por ser uma artista, mas por ser mulher e fazer certas escolhas mal vistas pela sociedade. Uma mulher inconformada com o que estava destinado às mulheres do seu tempo e que teve coragem de romper com determinações sociais. Klára aproveitou bem a liberdade que a sua personagem lhe dera e construiu uma história contemporânea de emancipação feminina.
Em “I’m Not Everything I Want to Be”, Libuše ao narrar a sua história diante do écran, nos estimula a explorar a nossa liberdade ao máximo, sem esquecer que as barreiras e as ameaças são muitas num meio social que ainda predomina o poder masculino e tantos preconceitos sobre o que uma mulher pode ou não fazer. A câmara fotográfica fazia parte do corpo da fotógrafa e é com ela que Libuše captura os momentos cotidianos e arriscados onde viveu desde a sua juventude a partir dos anos 70, entre deslocamentos incessantes de idas e vindas em busca de um lugar ao sol no mundo dos fotógrafos, entre Praga, Berlim e Tóquio. Lugares onde ela perambulou e desafiou regras sociais, vivendo sem medo ou pudor e de acordo com os seus ideais, valorizando a sua liberdade e sexualidade. E isto incomoda a muita gente, que prefere ver os desejos de uma mulher controlados, do que ela se expressar livremente. Libuše é uma fotógrafa que alcançou sucesso na sua profissão, mas não é mundialmente conhecida. A história tem nos mostrado que os nomes dos fotógrafos homens são mais lembrados.
Ainda nos anos 70, ela decide que não queria uma vida comum para si e enfrenta, por isso, as dificuldades próprias de uma Checoslováquia comunista com liberdade restrita, no início de carreira para uma mulher que não tinha uma família de renome que lhe abrisse portas no mundo do trabalho. Tampouco ela queria ter um homem para comandar a sua vida ou assumir a maternidade, esta última ela refuta veemente com dois abortos dos homens com quem se envolveu (um deles, quase lhe custou a própria vida), antes de descobrir a sua sexualidade lesbiana. As questões femininas colocadas em evidência no filme são universais, atuais e importantes, pois ainda persiste o desrespeito com relação aos direitos e escolhas de nós mulheres. Como disse a realizadora: “Libuše é um modelo a ser seguido”, principalmente por mulheres. Diante do desejo de viver sem amarras, ela desafia convenções em Praga, começando a frequentar clubes gays, a dar aulas para imigrantes vietnamitas, a fazer trabalhos noturnos em fábricas, locais onde registava, com sua câmara (companheira inseparável), realidades pouco visíveis pela sociedade, imagens do universo e ambientes transgressores dos quais fazia parte. A fotógrafa e as pessoas fotografadas dividiam o mundo precário do trabalho e, também, aquele das festas, compartilhavam sofrimentos e alegrias.
Libuše tem 72 anos, vive em Praga. Há cerca de 30 anos partilha a vida com uma mulher.
“I’m Not Everything I Want to Be”, foi o filme de abertura do INDIELISBOA 2024, onde o assisti; teve a sua estreia internacional na Berlinale. Para lá de ESPETACULAR. Fiquem atentos/as pois está previsto em breve ser distribuído em Portugal pela NoComboio. Daqueles filmes que todos deviam ver!



















