Uma dançarina exótica que também aceita trabalhos de escort é a mais recente adição ao universo de marginalizados da sociedade que o cineasta Sean Baker aponta a sua lente, tal como foi com o imigrante chinês ilegal que tenta pagar uma dívida em “Take Out”; uma atriz de cinema porno que faz amizade com uma idosa em “Starlet”; as transexuais de “Tangerine”; o vendedor de material contrafeito nas ruas de Nova Iorque de “Prince of Broadway“, e um ex-ator porno gay que regressa à casa depois da carreira falhar em “Red Rocket”. Estes são o tipo de personagens, alguns deles membros de minorias sociais mal interpretadas, frequentemente estereotipadas, ou sub-representadas, que o cinema mainstream vai esquecendo de estudar pois não existe entretenimento e espetáculo neles a não ser que caiam nas malhas do crime ou se tornem heróis.

Já Baker, realizador de um dos filmes mais duros e tocantes do novo milénio (Projeto Flórida), efetivamente olha para eles e coloca luz onde os outros encontram sombras. Mas nenhum filme de Baker ( talvez “Tangerine” se aproxime na densidade emocional, crítica social e no alcance do humor) como em “Anora”, na competição à Palma de Ouro do Festival de Cannes. Na verdade, Baker, uma história moderna da Cinderela em terras do Tio Sam, nunca esteve tão perto de Steven Soderbergh, sem nunca deixar as suas marcas pessoais por todo o lado. E não, não apenas na referência fácil de “The Girlfriend Experience”, mas daquele tipo de humor com os descalabros da vida, que conduzem todos a uma série de malapatas.

No centro deste delírio encontramos, Anora, a dançarina de uma boate que vai se envolver sexualmente e depois casar com um jovem de 21 anos, Vanya, o filho de um casal de ricos oligarcas russos. A vida dos dois é uma festa permanente e o casamento em Las Vegas, numa das muitas trips improvisadas pelo rapaz, é só mais um dos excessos de uma vida regada a privilégio. Porém, essa união, esse contrato, foi a gota de água que vai trazer os pais do jovem russo à América, despertando uma série de confusões e atritos que acabam por levar o padrinho do rapaz, e dois “capangas”, no seu encalço.

Um dos elementos mais fortes do cinema de Baker é a ternura com que trata às suas personagens, sejam protagonistas ou secundários, mesmo que o caos pessoal os condicione e revele o pior e o melhor deles. E é com Anora e tudo ao seu redor que vamos passar pelo romance, comédia e ação, nunca se perdendo o foco no drama e nos obstáculos que se amontam ao redor da mulher. Mas o que predomina é rir, rir e rir até começarmos a perceber que, para Vanya, a esposa apenas é mais que um capricho e objeto que decidiu se apropriar.

Claro está que num filme movido por duas personagens como Anora e Vanya teriam de estar dois atores em grande forma. Mikey Madison é solarenga quando tem de ser e uma criatura feroz incapaz de ser travada, ajudando em muito num dos objetivos do cineasta, ou seja, desestigmatizar a profissão de escort. Já Mark Eidelstein, como o irresponsável jovem russo, é uma força viva de despreocupação e solidão, escondida por festa e mais festa. E não podemos esquecer Yuriy Borisov (de “Compartimento 6“), no papel de Igor. Este é, provavelmente, o capanga mais doce que o cinema recente viu nascer. A não perder.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
sean-baker-regressa-em-forca-com-anoraCom uma história moderna da Cinderela em terras do Tio Sam, Baker nunca esteve tão perto de Steven Soderbergh, sem nunca deixar as suas marcas pessoais por todo o lado.