Já premiado na Berlinale como melhor ator por “A Different Man”, o ‘Capitão de Inverno’ Sebastian Stan pode muito bem acabar por ganhar semelhante distinção em Cannes, desta vez por “The Apprentice”, onde interpreta o papel de Donald Trump.

Mas o luxo na interpretação neste novo filme de Ali Abbasi não se resume a Stan. Ao lado dele encontramos Jeremy Strong  (Succession) no papel de Rob Cohn, o advogado que lhe deu as mais importantes  dicas e regras para encontrar o sucesso, e que incluem “atacar, atacar, atacar” e, mesmo perdendo, nunca admitir tal”. 

Servindo como um tuturial de como Trump se tornou a personagem que conhecemos, sem entrar na sua incursão na TV, o filme – já atormentado pela polémica que pode levar o cineasta aos tribunais, já que a equipa da campanha de Trump ameaçou o cineasta com um processo judicial-, mostra uma série de privilégios, favores e muitos deslizes fora da ética, da moral e da lei que foram permitindo a Donald criar o seu império, iniciando o seu percurso com o hotel que abriu em Nova Iorque em parceria com o grupo Hyatt, sem pagar qualquer taxa de urbanismo à cidade falida, até à famosa Trump Tower e muito mais empreendimentos. “Uso o nome Trump [nesses empreendimentos] porque vende, não por causa do ego”, diz o antigo presidente norte-americano numa entrevista a certo momento, deixando desde cedo a necessidade de validação do status quando se torna um dos mais jovens membros de um clube selecto que se torna o centro das grandes decisões da sua vida, sejam de negócios, sejam emocionais pois é aí também que conhece Ivana, com quem casará com termos muito claros que o seu colaborador Rob escreveu. 

E essa relação com Rob está também muito em evidência, esvaziando-se progressivamente de interação entre os dois à medida que Donald faz crescer o seu império e o conselheiro dá sinais de doença que apontam para Sida, mas que ele esconde – tal como a orientação sexual – dos olhos do público. Já a sua relação com Ivana (Maria Bakalova) ou com o pai, Fred Trump (Martin Donavan), é tratada por momentos-chave, deixando a sensação que se podia aprofundar mais. Porém, algo salta a vista: ambos são reduzidos perante a figura de Donald, que chega mesmo a afastar a ideia que o pai chegou tão longe de onde ele vai chegar.

Esteticamente o filme segue alguns clichés ligados a cada época que retrata (um pouco como “Limonov”, também na luta para a Palma de Ouro, mas que funcionam em sintonia com os eventos e personagens que Trump encontra no seu caminho de “atacar, atacar, atacar”

No final, a controvérsia – além de inúmeros momentos de esquemas de negócio, há uma cena de violação a Ivana – pode atrair público para a obra, mas ‘The Apprentice” é, principalmente um retrato realista, raras vezes caricatural, mas sempre provocador, do candidato às eleições nos EUA no próximo ano. E Stan foge e aproxima se da arte de mimicar quem representa, dando-lhe uma dimensão igual e simultaneamente diferente da sua persona. Tem nexo essa abordagem já que longe das câmaras e público, Trump caminha pelas sombras certamente de forma diferente

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-apprentice-ali-abbasi-as-voltas-com-donald-trump ‘The Apprentice” é, principalmente um retrato realista, raras vezes caricatural, mas sempre provocador, do candidato às eleições nos EUA no próximo ano