Não há volta a dar: o novo filme de Jacques Audiard, “Emilia Perez“, na imensa tradição do melodrama, transformado em telenovela com o aparecimento da televisão (no México, a primeira data de 1951, “Ángeles de la Calle”), é um dos filmes de maior potência pop, na forma e no conteúdo, que o Festival de Cannes viu em 2024. 

Inserindo o drama e terror do narcotráfico, bem como as suas milhares de vítimas e peões num xadrez do crime que nos leva do México à Suíça, passando por Telavive, Audiard fala de transformações, quer seja de uma procuradora da justiça que começa a colaborar com um narcotraficante, quer seja deste – chefe de um cartel – que após anos de preparação se transforma em mulher. E há também transformações morais e éticas quando este antigo traficante e assassino inicia um processo de redenção quando decide criar uma instituição que procura pelos desaparecidos nas guerras da droga. E a embrulhar isto tudo temos drama, ação, suspense e inúmeros momentos musicais que dão cor e ritmo a um filme que efetivamente aborda temas pesarosos e é regido no fundo pelo suspense.

Protagonizado por Zoe Saldana como Rita, a antiga procuradora transformada no braço direito da mulher que agora temos pela frente, “Emilia Perez” conta com boas interpretações no seu conjunto, com Selena Gomez a mostrar novamente as suas garras no cinema de autor, no papel da esposa do traficante, e a espanhola Karla Sofía Gascón no papel transsexual, que de Manitas passa para Emilia.  

No seu enredo, é telenovela nos píncaros do luxo, mas é igualmente cinema a ser cinema no ato de lutar contra uma “narrativa” minada de clichés, voltas e reviravoltas, que vezes sem conta se repetem nas fórmulas televisivas, e entregar um fulgor visual que ganha muito em ser visto no grande ecrã.

No fundo é um Audiard em boa forma a experimentar o registo musical, com o mesmo sentido que se aventurou nos westerns com “Os Irmãos Sisters”, ele que um pouco por toda a sua carreira falou de transformações e renovações humanas, fosse em “Um Profeta”, fosse em “Dehpan”. 

Dificilmente “Emilia Perez” sai de Cannes sem um prémio.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
emilia-perez-o-regresso-fulgurante-e-musical-de-jacques-audiardÉ telenovela nos píncaros do luxo, mas é igualmente cinema a ser cinema no ato de lutar contra uma “narrativa” minada de clichés, voltas e reviravoltas, que vezes sem conta se repetem nas fórmulas televisivas, e entregar um fulgor visual que ganha muito em ser visto no grande ecrã.