Sete anos depois de “I’m Not a Witch”, onde colocava a contemporaneidade em confronto com a superstição, a partir da  história de uma jovem acusada de bruxaria numa aldeia, a zambiana-galesa Rungano Nyoni chega a Cannes com o mesmo espírito de confrontação identitária da sua cultura, desta feita a partir da história de Shula (Susan Chardy), uma mulher que regressa à Zâmbia e tem de lidar com a morte, funeral e múltiplas descobertas problemáticas sobre a vida do seu tio Fred.

E, sem rodeios, é um regresso espetacular da cineasta, tal a dimensão de tópicos  que abarca em pouco mais de 1h30, ora mostrando com naturalismo os rituais da comunidade, ora dando um toque místico de tom surreal que coloca em choque as ideias modernas e conservadoras, que neste caso apontam que a  morte é um quadro em branco e os pecados do falecido são apagados com a sua morte.

É que vamos descobrindo, aos poucos e poucos, que Fred, além de ter múltiplas esposas e filhos, abusou sexualmente de várias mulheres, e foi preservado na sua posição pela cumplicidade silenciosa de todos os que o rodeavam. Mas este é também um filme que belisca o sistema de classes sociais e castas do povo Bemba, incluindo Rungano, frequentemente, elementos de humor negro que devassam as pressões sociais sobre as mulheres e revelam a força de um patriarcado obsoleto, que no meio de tudo isto ainda acusa a esposa oficial de Fred de ter culpa na morte dele porque não cuidou dele da melhor forma. 

Além disso, desta vez não estamos na ruralidade de uma aldeia como em “I’m Not a Witch”, mas na cidade e numa classe média que considera que certos segredos devem ser enterrados para não atrair as atenções. E, ao fazer isto, Rungano não fala apenas da Zâmbia, mas de todos os países do globo, onde se inclui o chamado primeiro mundo que foi permitindo que nomes como Harvey Weinstein continuassem a cometer crimes durante décadas por causa da normalização do seu comportamento.

Uma última nota para a cena final, onde Rugani requisita o seu próprio misticismo para soltar o seu grito. Um grito que tão cedo não se esquece. 

A não perder.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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