Realizador de um dos filmes com mais teorias conspiratórias da história, “JFK”, o norte-americano Oliver Stone tem mais uma carta na manga, num momento em que o tema do aquecimento global, a poluição e a dependência energética dos combustíveis fósseis está na agenda dos principais governos do planeta.

E enquanto a maioria grita por energias renováveis, eis que Stone apregoa “Nuclear Now” (O Nuclear Já). Documentário panfletário nas suas quase duas horas, nele o cineasta tenta nos convencer que a energia nuclear é limpa e a única eficazmente capaz de reduzir as emissões de dióxido carbono até 2050. Movido num estilo corporativista, onde apenas uma pessoa que podemos chamar cientista fala dos benefícios do nuclear, muitas vezes o espectador sente que está no meio de um anúncio da Rekall de “Total Recall” ou da Omni Consumer Products (OCP) de “Robocop”, especialmente na ponta final, onde imagens de pessoas felizes e um planeta limpo soam à cereja no topo do bolo da manipulação.

Stone começa este seu manifesto político e comercial por traçar uma história do nuclear, de Madame Curie aos tempos atuais, nos quais micro reatores arquitetonicamente formidáveis estão preparados para alimentar pelo menos 1000 habitações. Pelo meio, o realizador culpa Hiroshima e Nagasaki e os filmes que se fizeram a seguir (como “Godzilla“, “Pandora“, etc) para explicar o pânico geral da população com o nuclear, paternalisticamente afirmando que esta tem de distinguir armas nucleares de energia nuclear. E sempre que surge um acidente radioativo na narrativa, seja nos EUA (Three Mile Island), na Ucrânia (Chernobyl) ou Japão (Fukushima), Stone desculpabiliza rapidamente tudo dizendo que os locais foram mal construídos ou mal planeados, minorando o número de mortos e feridos em comparações generalistas com as mortes ligadas às energias fósseis. E quando chega o ponto de falar das energias renováveis, Stone enfatiza a sua pouca capacidade e dimensão, comparada com as necessidades nucleares, sem nunca esclarecer (além do cimento) o que acontece ao lixo nuclear.

Mas o topo da ineficácia deste documentário, revelador do tom populista, é quando Stone chama à equação uma influencer que se apregoa “verde”, mas afirma – no jeito mais tik tok que pode – que o nuclear é a solução limpa que o mundo precisa. Já no campo do inenarrável, é que o cineasta pega em acontecimentos históricos ou mensagens de um mundo melhor, usando imagens de figuras como Gandhi, Martin Luther King, John F Kennedy e até Greta Thunberg para, no final das contas, vender o nuclear. Haja paciência.

Resumindo e baralhando: Stone faz um anúncio publicitário que mais merecia ser candidato ao Cannes Lions (nunca ganharia).

(Crítica originalmente escrita em dezembro de 2023)

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Jorge Pereira
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