Impecável na sua sintonia com os códigos físicos e com os efeitos fisiológicos – dar frio na barriga, fomentar o roer de unhas frenético e gerar saltos da cadeira – “The Nun: A Freira Maldita II” tem dois dissabores que represam a sua potência e um misbehavior hoje reiterado na seara B de Hollywood. Ponto fraco 1: a burocracia plena na fotografia de Tristan Nyby, que “suga” os planos esfumaçados e o chiaroscuro dos filmes de terror da Hammer da década de 1960 sem vergonha alguma. Ponto fraco 2: a competência inequívoca da realização de Michael Chaves, o mesmo de “La Llorona” (2019), não disfarça a sua falta de identidade, fotocopiando a estética do produtor James Wan (de “Saw”) – este, sim, um autor. Agora, o tal mau comportamento: qual é o sentido de ambientar uma longa-metragem na França e não aproveitar, na trupe de extras, o elenco de gigantes que a terra de Truffaut tem a oferece? Existe espaço nobre para o belga Jonas Bloquet, importado pelos EUA depois de “Elle” (2016). Mas por que razão as produções de baixo orçamento dos Estados Unidos não aproveitam a nata local em papéis periféricos? Cada vez mais, esse mal agrava-se.

Porém, o Mal desta sequela muito bem editada do morno “The Nun” – produção de 22 milhões de dólares que faturou 365 milhões em 2018 – é dos mais envolventes. Taissa Farmiga segue os passos da sua irmã mais velha, Vera, e alicerça o seu nome como um talento ao se ancorar na luta urgente (e necessária) por heroínas humanizadas e de brio, no papel da Irmã Irene. Entre o filme original e a continuação que chega agora aos ecrãs , a evolução das ferramentas cénicas é notável. Ela esculpe camadas na personagem da religiosa abalada pela perda da mãe que lhe dão um misto de impavidez e vulnerabilidade raramente encontráveis co grande ecrã. Ao seu lado, Storm Reid tem um desempenho igualmente arrebatador no papel da noviça Debra, que arrasta o fantasma do racismo consigo. A menção à intolerância racial, numa trama ambientada na França dos anos 1950, aproxima o filme da nova vaga do horror político trazida por Jordan Peele a partir de “Get Out” (2017).

Taissa Farmiga transforma a Irma Irene em heroína numa atuação abençoada neste derivado da franquia “The Conjuring” – Fotos: @Warner Bros

Mas o trunfo central do filme de Chaves é a montagem de precisão suíça de Gregory Plotkin, capaz de disfarçar a precariedade de alguns efeitos visuais e espartana no enfrentamento da inércia. Mais do que eficaz no empenho em ferver a adrenalina nas veias, a edição de Plotkin combate a postura moralista da patrulha do politicamente correto na atualidade de esterilizar o terror ao contestar a pertinência do jumps scares. Propuseram alternativas como o cinema extra-ordinário (no qual o mistério é mais significativo do que susto), expresso em “Shapeless” (2021), “Swallow” (2019), “Trabalhar Cansa” (2011), em lugar do frenesi muscular dos jump scares. Só que produções como “The Nun” resolveram reciclar (bem) uma fórmula do passado.  

Por ser derivado da franquia “The Conjuring”, sobretudo do seu segundo (e magistral filme), “The Nun: A Freira Maldita II” se lambuza-se nos jump scares, não só no modo furtivo como Valak, o demónio aparece, mas também na aparição de um monstro em forma de bode. Quem compra bilhete para se assustar, vai sair bem satisfeito. E vai ainda ter muita argamassa filosófica para refletir sobre a condição humana e os seus percalços.

Num timbre existencialista, “The Nun: A Freira Maldita II” flerta com o clássico “Les Yeux Sans Visage” (1960), de Georges Fanju, ao representar graficamente a figura de Valak e o fetiche que ela procura na trama de Ian Goldberg, Richard Naing e Akela Cooper. Supostamente defenestrada para os quintos dos infernos do filme matriz, lançado há cinco anos, Valak volta a se manifestar, na sua forma de freira. Trata-se de um anjo caído que usa um hábito católico e se manifesta até em paróquias. Ela quer um item sagrado para ampliar o poder e, à cata desse objeto, vai parar num liceu onde trabalha o seu antigo desafeto, Maurice (Bloquet), um empregado cuidadoso. Na sequência de abertura, a Coisa Ruim de véu faz uma das suas, torrando um padre vivo. É uma abertura primorosa para um exercício terrorífico que dispensa sutilezas. A partir desse arranque, a gravidade das maldades de Valak amplia-se, o que leva o Vaticano a convocar Irene (Farmiga, perfeita) para detê-lo.

Existe um clima de combate entre o Bem e as Trevas que não assume o seu maniqueísmo sem pudor. Há uma situação ou outra que causam desconforto, como é o caso de uma agressão física (um sopapo) de um ser possuído contra Irene. Mas essa impressão desconfortável abre deixas para se discutir a violência de género, o que amplia a qualidade e a relevância do trabalho dos guionistas. O resultado final é um espetáculo imperfeito, porém, imperdível.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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