Estudante de biofísica transformada em cineasta após estudar na Academia de Cinema da Holanda, Stefanie Kolk deu os seus primeiros passos no cinema através de três curtas – “Clan” (2016), “Harbour” (2017) e “Eyes on the Road” (2019) – todas elas estreadas em Locarno, na competição Pardi di domani.

É, porém, em Veneza, na barra paralela Giornate degli Autori, que a holandesa decidiu estrear a sua primeira longa-metragem, “Milk”, um drama contido sobre o vínculo entre uma mãe e o seu filho natimorto, que se transforma num diálogo doloroso, sempre longe de qualquer exploração emocional. E sendo, principalmente, um filme sobre luto e uma gravidez que se prolonga para lá do (não) nascimento, a cineasta – inspirada na experiência da irmã e dos pais, que optaram por doar o leite após perderem um bebé – descreve as transformações fisiológicas e psicológicas de Robin, soberbamente interpretada por Frieda Barnhard.

Kolk não embarca em depressões explícitas ou traumas escancarados, mas ao “nascimento” de uma obsessão que, de alguma forma, compense ou dê algum sentido à mulher após tudo o que passou. Com excesso de leite materno, que vai acumulando e empilhando no frigorífico, esta “mãe” pretende escoá-lo e partilhá-lo com todas aquelas que, ao invés dela, tiveram um filho mas não produzem leite suficiente para o alimentar.

Complicações, atrás de complicações, onde se inclui uma doença venérea já curada, mas que ainda surge destacadas nas análises clinicas, colocam esse ato de partilha e extensão da gravidez numa verdadeira missão impossível, o que psicologicamente ainda vai castrar mais a mulher, que procura algum tipo de significado para tudo o que viveu. Aos poucos e poucos, esse “leite” torna-se peça central da vida da mulher, girando tudo em torno dele, seja o relacionamento com o marido ou amigos.

Uma banda-sonora minimalista, mas acertada, dá um timbre de tensão psicológica a um drama puro e duro. “Milk” é um estudo de personagem angustiante à forma como nos relacionamos e nos entendemos, um tema recorrente de todo o cinema de Kolk, que aqui não só se foca na ligação mãe-filho natimorto, mas com a própria sociedade, que não falha tanto na sua condescendência, como na discriminação burocrática de procedimentos.

Nesse sentido, “Milke” não é um filme com um propósito claro, nem objetivo, ou sequer mensagem. É apenas um relato sofrido da psique de uma mulher após o seu corpo falhar e a forma que encontra para lidar com isso.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
milk-elo-e-transmissaoUm relato sofrido da psique de uma mulher após o seu corpo falhar para além de qualquer explicação