Talk to me”, uma pequena produção australiana que vem com a assinatura de dois youtubers, foi agarrada pela A24 logo após uma estreia bem sucedida no Festival Sundance. E, como tantas pequenas produções, é agora vítima do seu próprio hype, principalmente empolado por uma horda de film reviewers que se desfez em tantos elogios que o elevaram à magistralidade, o que, adicionado ao fator Trend que o selo da A24 ganhou no circuito global, trouxeram uma atenção excessiva ao filme.

A consequência é: numa segunda fase de vida da produção, o da chegada ao circuito comercial, tem surgido um grande desânimo do espectador que não encontrou a tal “genialidade”. O resultado agora é uma contracorrente extremamente negativa que, tal como a primeira “magistralidade” apontada, tornou-se profundamente hiperbólica.

A verdade é que este pedaço de horror “aussie“, no meio dos seus problemas/buracos de argumento, resolvidos (a maioria das vezes bem) com a ausência de grandes explicações e mantendo-se vago, diminuindo consequentemente o peso e valor das palavras, tem uma grande eficácia, não apenas por se optar por utilizar efeitos práticos em vez do CGI padrão, mas principalmente porque “Talk to me” nunca se encerra na cultura do filme com apenas “jumpscares”, preferindo antes mesclar o seu horror com uma história de drama pessoal – o de Mia, uma jovem em luto, com problemas na relação com o pai, que na busca de um elo de ligação com algo/alguém, se junta a um grupo de adolescentes fascinados com jogos de espíritos.

No centro de tudo está uma bizarra “mão” revestida, que um grupo de miúdos encontra e faz dela um joguete. A origem da peça é tratada propositadamente de forma vaga e desajeitada, mas sabe-se que, quando agarrada, se se proferirem as palavras Talk To Me” (Fala comigo), evocam-se os espíritos dos falecidos. Claro que existem algumas regras, nesta forma de “Ouija” tratada pela juventude como uma espécie de experiência de “Realidade Aumentada” assombrada, cujos resultados são obviamente registados e publicados nas redes sociais. Assim, quando os mortos nos aparecem pela frente, depois de dizermos “Talk To Me”, podemos permitir que os seus espíritos entrem no nosso corpo, mas nunca mais de 90 segundos, senão os espíritos podem se apropriar definitivamente do nosso corpo. Nesta “temporalidade” ao brincar com a morte, “Linha Mortal” de Joel Schumacher, vem também à mente.

Sophie Wilde caracterizada com “Big Eyes” à la Margaret Keane, no meio de uma possessão.

Sabendo todos que estamos num filme de terror, e vendo miúdos a brincar com espíritos, temos a noção que em algum momento as coisas vão dar para o torto. E assim é. Um par de cenas no início aumentam a nossa ansiedade, como o prólogo macabro no meio de uma festa, ou numa outra cena, onde logo após a protagonista cantar “Chandelier” num carro, é confrontada bruscamente com um canguru ferido na estrada. Nada disto é inovador e, ainda recentemente, tivemos em “Get Out” uma cena semelhante logo a abrir que servia de aviso ao que viria a seguir, deixando o espectador logo submerso numa atmosfera pesada e nervosa.

O que se segue é uma descida vertiginosa e emocional a Mia (Sophie Wilde), a qual, ao seu jeito, faz também um “talk to me” na busca de amigos, uma “cura” para a sua dor emocional. Será no meio dessas “brincadeiras perigosas” que ela assiste à chegada do espírito da falecida mãe, da qual quer ter mais respostas sobre a sua morte. Cega por essa necessidade, os 90 segundos de possessão começam a ser vistos como insuficientes, o que vai levar à quebra da regra principal e trará temíveis consequências.

Por vezes assustador, outras vezes apenas triste na avaliação da perda, da dor do luto e da falta de respostas, “Talk to Me” está bem longe de se tornar um marco no cinema de horror, mas é extremamente eficaz. Nisso, prova que a dupla Danny Philippou e Michael Philippou conseguiu dar o salto do Youtube para o Cinema, sendo efetivamente realizadores a seguir no futuro.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
fala-comigo-dupla-de-youtubers-da-o-salto-para-o-cinema-com-filme-de-terror-eficazPor vezes assustador, outras vezes apenas triste na avaliação da perda, da dor do luto e da falta de respostas, “Talk to Me” está bem longe de se tornar um marco no cinema de horror, mas é fundamentalmente eficaz .