Sobrecarregado por uma banda-sonora de tons manipuladores, capaz de guiar as emoções da plateia, “El Rezador” se instaura na tradição sul-americana do thriller social, desapegando-se das equações moralistas do filão ao celebrar o lado mais torpe das suas personagens como forma de se rebelar dos vícios semânticos do seu continente. Vindo de Equador, pátria de onde brotam documentários inventivos, a segunda longa-metragem de Tito Jara põe em fricção todos os códigos narrativos que se esperam de narrativas tensas, promovendo, em paralelo a fórmulas, um estudo das feridas mais purulentas da Pangeia de colonização hispânica: o vigilantismo, a violência contra as mulheres e as fraudes praticadas por falsos curandeiros. Mas essa análise promovida pelo cineasta vai num sentido oposto ao discurso sociológico de inspiração europeia (ou seja, uma perpetuação da nódoa colonial), no ímpeto de apontar uma nova rota para debates da harmonia civilizatória num território onde o Estado é ausente. Jara não se debruça sobre Émile Durkheim (e o seu funcionalismo), nem sobre Pierre Bourdieu e a sua reflexão sobre os códigos opressores da onipresença mediática (também expressa no filme). A sua dramaturgia prefere dialogar com os caminhos apontados pelo jornalista e escritor Eduardo Galeano, na perceção de que a corrupção galopante e o desamparo político impõem aos latinos a necessidade de uma ética própria, mutante, moldável, resiliente… o famoso “jeitinho”.

Esses tais preceitos sócio-políticos ganham uma tradução ficcional provocativa na figura do falso pregador Atanasio, uma personagem regado a álcool, tesão e culpa (bem) interpretada por Andrés Crespo. Famoso por vender pílulas bentas e os elixires de cura, ele vai conhecer uma menina e o seus aparentes milagres curativos. As suas habilidades de salvar enfermos é um convite para o dízimo dos crentes. O pai da menina se convence disso ao cair na lábia de Atanasio. Mas, pouco a pouco, sob a pressão violenta de um subúrbio perpendicular à vida metropolitana de Quito, o “rezador” do título começa a perceber que está a transformar-se, na sua essência de ave rapina, pelo convívio com a menina santa e a sua mãe.

É uma viragem que evoca “Elmer Gantry” (1960), de Richard Brooks, com Crespo assumindo um arquétipo que, na longa-metragem de Hollywood, foi de Burt Lancaster. Ou seja, é o arquétipo do religioso de araque que encara um rebanho de fiéis cheios de carências com presas de lobo salivantes, mas, aos poucos, vai sendo convertido num cordeiro frágil ao ser acossado pela absoluta ausência de empatia do seu governo. O que Jara nos dá é um exercício de reflexão potente, com um ritmo nervoso.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
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