Estava escrito nas estrelas e, principalmente, nos relatórios de execução trimestral e anual das grandes empresas (Warner Bros., e Mattel) que, lançar um filme sobre a boneca Barbie, em 2023, só poderia acontecer se se pegasse num tema como a emancipação/empoderamento feminino. Pelo caminho, ataca-se o patriarcado (o vilão do momento) e o corporativismo empresarial (o vilão de sempre) através de piadas afiadas, mas de pouco impacto real, pois embora deem a ilusão de uma real manifestação ideológica, essa mesma estratégia apenas é possível porque a temática é comerciável.
É, sim, o capitalismo na sua melhor forma (camaleónica), a ir de encontro a um alvo, o consumidor, tendo como ponto final não apenas vender nas salas de cinema um filme, mas revitalizando a sua boneca, amigos e adereços para às novas gerações e para as velhas, entretanto incomodadas com o significado global que a boneca adquiriu. E isso não se sente apenas – de forma óbvia – quando Will Ferrell, que faz de CEO da Mattel no filme, dá o dito por não dito na opção de criar uma “Barbie Normal” (cujos estudos económicos apontavam para o sucesso), mas ao se reunir “velhos inimigos” em busca de um propósito comum: fazer dinheiro. Veja-se por exemplo a inclusão no filme, durante os créditos finais, da música “Barbie Girl” dos Aqua, que, na década de 1990, foi fortemente contestada por infração do copyright e trademarks, colocando frente a frente nos tribunais a poderosa Mattel e a não menos potente MCA Records. O tribunal não deu razão à Mattel, a música tornou-se um sucesso e, 26 anos depois, este tema intergeracional surge validado no filme.
Numa era em que tudo, mas mesmo tudo, pode gerar conteúdos para um qualquer mercado (cinema, streaming, tv), não foi por isso surpreendente, embora agradável de se assistir como objeto de entretenimento com cérebro, encontrar Barbie – idealizada por Ruth Handler a partir de uma boneca adulta alemã Bild Lilli – ser adaptada ao cinema por Greta “Lady Bird” Gerwig. A atriz e realizadora, uma verdadeira “darling” do circuito independente norte-americano, impõe no seu filme (escrito em conjunto com outra vedeta indie, Noah Baumbach) um debate que ainda assombra a existência da boneca: será Barbie capaz de mostrar realmente que as mulheres podem fazer tudo o que os homens fazem (ser presidente, advogadas, juízas, médicas, astronautas, etc) ou é apenas um artefacto que estereotipa (e até objetifica) a beleza feminina, padronizando e criando gerações inteiras de mulheres desiludidas por não se assemelham aos seus rígidos e até irreais padrões (loura, magra, bela)?
A verdade é que a Barbie (Margot Robbie) de Greta Gerwig, que vive na Barbieland cercada de Kens, cuja função é apenas estarem ali, acredita piamente na primeira opção, ou seja, que serviu de inspiração e elevação para as mulheres. Porém, essa ideia é atropelada quando Barbie se vê forçada a sair do seu ambiente e visitar o mundo real, onde vai encontrar uma ordem global gerida pelo patriarcado. Claro está que fica desiludida com o que encontra, expondo diversas emoções humanas entretanto adquiridas, ao contrário do Ken (Ryan Gosling) que a acompanha na viagem, o qual, fascinado com este novo mundo regido pelos homens, decide levar essas ideias para a Barbieland.
A guerra dos sexos está montada, onde ninguém quer ser adereço de um outro cujo destino é brilhar na sua sombra, tudo exposto por entre gags sarcásticas de índole feminista, embrulhadas num pomposo e vistoso produto cinemático onde o colorido mundo imaginado contrasta com a sobriedade dramática do mundo real. E Gerwig, que ainda recorre a meta piadas na sua tour de force para dar vida a um brinquedo que se tornou um símbolo ambíguo na sociedade, consegue em menos de duas horas entregar um projeto de profunda comercialidade, mas que sustenta nos seus alicerces bases ideológicas claras, dispostas a responder a dilemas em torno da boneca, o seu significado e o seu futuro (no mundo dos negócios, claro está).




















