Com uma vastíssima carreira de ator e ainda mais acentuada no reino do stand-up, Gad Elmaleh lançou-se na escrita e realização de aquele que é, certamente, o seu trabalho mais pessoal: “Reste un Peau” (“Fica Connosco”), uma comédia dramática com diversos elementos autobiográficos sobre a sua busca espiritual.
Longe da exuberância de qualquer produto cómico orientado para a sucessão de gags e fanfarronice, “Reste un Peau” é um filme ligeiro, muito ligeiro sobre um homem oriundo da fé judaica e de uma família sefardita tradicionalista, mas que demonstra um enorme fascínio pela Virgem Maria e decide se converter à fé católica aos 50 anos.
Claro está que esta premissa poderia ser mais uma a gerar um barril de risos equivocados a partir das diferenças culturais e religiosas, como “Que Mal Fiz Eu a Deus?”, sobre uma família católica tradicional em que os pais têm de aprender a lidar com os namorados das filhas (de diferentes culturas e religiões), ou “Coexistir Não é Fácil”, onde um produtor musical forma uma banda com um padre, um rabino e um falso imã. Contudo, as vias por que percorre a escrita de Elmaleh são outras e só a padronização mercantilista do mercado de distribuição pode vender este “Fica Connosco” como uma comédia para rir até cair para o lado.
No filme, tudo começa com o regresso de Gad à Casablanca da sua infância, onde os pais, Régine e David (interpretados pelos pais reais do ator), o recebem com pompa e circunstância. Aos poucos e poucos, através de momentos como aquele em que Gad está a assistir a uma missa/procissão online e fecha o computador apressadamente quando a mãe entra, percebemos que existe um segredo que ele quer contar, mas não tem coragem. Esse fechar o computador, como se estivesse a ver pornografia, dá-nos a clara noção que o tema da religião e o seu fascínio pelo catolicismo é um tabu para a sua família judaica, algo que ganha proporções maiores quando a mãe de Gad descobre na mala dele uma gigante estatueta da Virgem Maria.
Fugindo, como expliquei anteriormente, ao modelo de gags e sketches que se colam uniformemente numa comédia espalhafatosa, “Reste un Peau” vai por um caminho cada vez menos trilhado no cinema contemporâneo: o da discussão da fé e o que nos impele a ela. Ao invés, esse tema – com honrosas exceções, como Terrence Mallick faz no seu cinema – tem chegado às salas apenas numa vertente cómica espampanante de farsa, acabando sempre no final por sucumbir à ditatura do agradar gregos e troianos, com ideias moralizantes sobre aceitação e direito à diferença.
Por isso mesmo, “Reste un Peau” é um filme efetivamente diferente do modelo, sem gozos ou paródias descartáveis, mas singelo na sua forma pessoal de perseguição espiritual de um homem em crise existencial e familiar.
















