Temperado a cores fortes, típicas da direção de fotografia de Henry Braham (de “Guardians of the Galaxy”), “The Flash” é uma narrativa incomum para os padrões dos filmes de super-heróis lançados nos últimos anos, pela sua aposta num coeficiente de melancolia que nenhum título deste filão trouxe até hoje, sem deixar de lado a ironia típica de Ezra Miller e um espaço generoso para sequências de ação.

As melhores cenas são aquelas em que surger Michael Keaton, que volta a vestir o uniforme do Homem-Morcego, 31 anos depois de “Batman Returns”, empregando o seu talento para ampliar esse espectro melancólico que está na medula da sua personagem. Ben Affleck, que também vive Bruce Wayne, só que numa linha de tempo paralela ao Wayne de Keaton, apresenta-se em cena mais inspirado do que habitualmente – recobrando o seu impecável trabalho em “Gone Girl”, de 2014 – também revolvendo essa natureza enlutada do guardião de Gotham City.

Toda a narrativa que o cineasta argentino radicado em Hollywood Andy Muschiatti (“It”) carrega é doída, sempre sustentada por uma reflexão sobre o desamparo. É assim desde a curta-metragem “Histórias Breves III” (1999). O que existe de novo aqui é a inteligência com que essa tónica autoral do realizador se alinha com o património dramatúrgico da DC Comics, em especial a saga “Crise nas Infinitas Terras”, de Marv Wolfman e George Pérez de 1986.

Criada em 1934, sob o nome National Allied Publications, que passou a ser National Periodical Publications, em 1961, a editora DC foi fundada pelo escritor e oficial militar major Malcolm Wheeler-Nicholson (1890-1965). Ele iniciou a sua linha de BDs com “New Fun: The Big Comic Magazine”, publicando tramas de cowboys e enredos de aventura. Só lá pelo sexto número dos quadriadnhos surgiu algo próximo de um super-herói, um vigilante ocultista chamado Doutor Oculto. Nos anos seguintes, duas novas revistas foram editadas: “Adventure Comics”, onde surgiu o Homem de Aço, em 1938, e “Detective Comics”, onde o defensor de Gotham City foi criado, em 1939. Fábrica viva de vigilantes, a empresa, entre muitas reestruturações, lançou o Flash (que Ezra encarna agora) na revista “Showcase” n.4, de outubro de 1956, com o guião de Robert Kanigher e ilustrações do desenhista e editor Carmine Infantino. Desde então, Flash sempre teve um protagonismo de peso, sobretudo em 1977, quando a sigla DC passou a ser adotada pelo grupo editorial como nome. Esse protagonismo foi essencial para a reformulação que o grupo passou com “Crise nas Infinitas Terras”.

Em meados dos anos 1980, ao perceber que a DC, nessa sua evolução histórica, foi se enchendo de personagens (muitos delas desnecessárias) e de realidades alternativas, Wolfman e Pérez criaram um evento no qual um ser chamado Anti-Monitor espalhava uma energia mortal (a antimatéria) por diferentes universos, ceifando vidas, mas, unificando planos de realidade, revistando diferentes versões de um mesmo herói ou de uma mesma heroína. O próprio Flash tinha uma outra forma, mais parecida com a do deus Mercúrio, que se chamava Jay Garrick. O acerto de Wolfman e Pérez foi aproximar figuras assim, construindo uma interseção física e temporal de instâncias cronológicas distintas – conceito que hoje se chama multiverso.

Argumentistas da longa-metragem de Muschietti, Christina Hodson e Joby Harold, apropria-se desse argumento das bandas-desenhadas e procuram simplifica-lo numa trama (envolvente) de viagem no tempo, na qual o Flash, usando a sua super velocidade, cria uma fenda dimensional que o leva ao passado. O objetivo esse salto temporal é salvar a mãe, Nora (Maribel Verdú), que foi misteriosamente assassinada, e provar a inocência do pai (Ron Livingston) nesse crime. Mas a viagem que ele faz deixa cicatrizes no balanço cosmogónico das realidades e gera o desaparecimento dos heróis que formavam a Liga da Justiça, à exceção do Batman de Keaton. Desaparecem os vigilantes superpoderosos no momento em que surge um vilão vindo de Krypton, o general Zod. O icónico militar alienígena é (mal) interpretado por um Michael Shannon com ares de besta-fera, repetindo a desastrada composição para a mesma personagem que viveu em “Man of Steel”, traindo o espírito de um super criminoso essencialmente e fleumático. Zod foi delineado por Terence Stamp em “Superman – O Filme” (1978) e a continuação de 1980, sem bestialidades, como se fosse um estratega, que mata sem escândalos. Shannon faz de Zod um búfalo selvagem, intempestivo e sem estratégia. Aqui, neste tronco de realidades, ele quer o corpo de uma guerreira kryptoniata, Kara, a Supergil, que Sacha Cale encarna de modo majestoso.

Esse combate contra Zod e o regresso de um Batman septuagenário encobrem a verdadeira sina de Flash, que encontra uma versão mais jovem de si, vivido também por Ezra, só que com mais humor. Essa sina: rearranjar no Tempo, e no Espaço, a confusão que criou. Confusão essa que rende uma série de piadas divertidas sobre a própria cultura pop (algumas inteligíveis só para poucos), como a escolha de Eric Stoltz para a trilogia “Back To The Future” (1985-1990) e uma menção ao malfadado “Superman” com Nicolas Cage e aranhas robóticas. Já que a ideia era vasculhar o baú da DC, Muschietti poderia ter trazido outros vilões à tona. Mas o filme tem dignidade suficiente para se manter de pé com os seus chistes e as suas dores.

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Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
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