Cinco anos depois de invadir a Semana da Crítica do Festival de Cannes com “Shéhérazade”, e de posteriormente tornar-se um fenómeno global pela presença na grelha da Netflix, o francês de ascendência arménia Jean-Bernard Marlin voltou ao “local do crime”, a Croisette, desta vez inserido na montra Un Certain Regard com “Salem”, mais uma viagem a Marselha e aos imigrantes de segunda geração marginalizados.
E se em “Shéhérazade” o foco era um casal jovem de origem árabe, Zachary e Scheherazade, agora as atenções centram-se na comunidade comoriana e cigana, com o início do filme a informar-nos de uma rivalidade histórica entre dois bairros, Sauterelles e Grillons, como se estivéssemos a falar dos Montéquios e Capuletos. Fã convicto de Shakspeare, Jean-Bernard Marlin evoca “Romeu e Julieta” neste primeiro terço de “Salem” (que significa paz em árabe, mas também bom-dia e olá) ao contar a história do comoriano Djibril e da cigana Camilla, cuja paixão vai acirrar rivalidades e conduzir a tragédias, como sempre acontece no cinema de Merlim.
Claro está que nesta primeira fase, de uma história de amor intensa e contra todas as barreiras, somos levados novamente ao universo de “Shéhérazade”, a diferença é que à brutalidade crua de forte naturalismo, por vezes quase documental, que volta a surgir em “Salem”, é adicionada uma camada de fantasia e misticismo, numa clara alusão ao mundo invisível, ao “extra-ordinário”.
O segundo ato de “Salem” acompanha Djibril na prisão e a sair dela, tal qual o que acontecia com o protagonista de “Shéhérazade”, mais uma vez carimbando a ideia de Merlim que os centros de detenção são uma paragem obrigatória para grande parte dos imigrantes de segunda geração. A diferença para o seu filme anterior é será na prisão de “Salem” que Djibril vai ter uma revelação divina, através da perceção que ouve espíritos e vê sinais divinos por toda parte, incluindo ter o poder de curar.
Se adicionarmos aos dois filmes de Merlin já mencionados a curta-metragem que assinou em 2013, “La Fugue”, é fácil perceber que o cineasta tem explanado no cinema as suas obsessões, transformando-as em marcas de autor que repetidamente aprimora – tecnicamente e atmosfericamente. E “Salem” é um salto considerável em termos estéticos e ambição, ainda que emocionalmente deixe mais à sugestão do espectador e apresente tudo com menos visceralidade que a que vimos em “Shéhérazade”.
Mas Merlin é mesmo um cineasta a seguir, especialmente pela forma como lida com o tempo e espaço, destacando-se em “Salem” a exposição de uma Marselha repleta de terrenos baldios e edifícios semi-abandonados. Esses são os locais por onde as personagens movem-se na maior parte do seu tempo, havendo um paralelo com o seu abandono afetivo, social e económico.



















