Apesar de uma carreira de várias décadas como diplomata, a realizadora checa Greta Stocklassa apenas teve conhecimento da figura de Hans Blix através da paródia de animação de fantoches “Team America: World Police” (2004). No segmento em questão, Blix desafiava Kim Jong-il, o ditador norte-coreano, acabando por ser enviado para um aquário onde é atacado por um tubarão,

A presença de Blix nesse filme da dupla de criadores de South Park era inevitável, afinal das contas ele foi durante anos responsável pela Comissão de Controle, Verificação e Inspeção das Nações Unidas (UNMOVIC), sendo o responsável máximo pelo controle da existência (ou não) de armas de destruição maciça por parte do regime de Saddam Hussein. Blix nunca verdadeiramente terminou a inspeção, pois – durante o processo – os EUA – juntamente com os aliados (onde Reino Unido e até Portugal estavam presentes – invadiram o Iraque e derrubaram Saddam. Poderia Blix ter feito mais na época e evitado a guerra? É o próprio que responde a esta questão neste “Blix Not Bombs”, que acabou de estrear no CPH:DOX.

Todo ele construído em torno de uma grande entrevista ao diplomata sueco, agora com 90 anos e na reforma, “Blix Not Bombs” não se limita nunca a um filme-homenagem, e mesmo quando Greta Stocklassa se questiona se está a fazer perguntas certas a Blix, existe a certeza que está, dada a forma incomodada com que ele responde e até se esquiva dos assuntos. 

Mas este não é apenas um filme sobre Blix: a realizadora traça uma cronologia da sua existência perante todos os grandes eventos do século XXI, particularmente aqueles que ocorreram após o atentado de 11 de setembro de 2001 e que mudaram o mundo para sempre. No mais, Stocklassa ainda especula sobre o efeito borboleta em torno do atentado às torres gémeas, com a invasão do Afeganistão e Iraque, o desastre político e militar que se seguiu que levou mesmo ao nascimento do Daesh. E quando vemos (mais uma gaffe de George W. Bush) a dizer que nenhum líder pode invadir unilateralmente um estado com fronteiras bem definidas,  numa referência à recente Guerra da Ucrânia, saindo-lhe da boca a palavra Iraque, percebemos a ligação entre as duas decisões belicistas: a dos EUA invadirem o Iraque e o da Rússia na Ucrânia.

Só por isso, “Blix Not Bombs” merece ser visto, mas este momento é apenas a cereja no topo do bolo de um verdadeiro tratado sobre a história recente do mundo no século XXI.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
blix-not-bombsEste não é apenas um filme sobre Blix: a realizadora traça uma cronologia da sua existência perante todos os grandes eventos do século XXI, particularmente aqueles que ocorreram após o atentado de 11 de setembro de 2001 e que mudaram o mundo para sempre