Vencedora de uma Palma de Ouro de Honra (em 2015), de um Oscar honorário (em 2018) e de 74 outras láureas, incluindo o Leão de Ouro de Veneza de 1985, dado a “Sans Toit Ni Loi”, a belga Arlette (Agnès) Varda (1928-2019) fez da sua carreira um inventário das estratégias que mulheres como ela inventaram e refinaram para subverter as imposições do sexismo. Um cancro de mama privou o mundo desta cineasta que amamentou gerações de espectadoras e espectadores, dos anos 1950 até hoje, com o sentimento da afirmação do feminino. Isso bem antes de “emancipação” se tornar a palavra da moda: aos 90 anos, esse pilar da Nouvelle Vague morreu, numa madrugada de março de 2019.

Pioneira da modernização política e narrativa da produção audiovisual, a realizadora de “Le Bonheur” (Prémio Especial do Júri na Berlinale de 1965). “Cléo de 5 a 7” (1962) é a ficção mais famosa da sua prolífica obra (fez cerca de 54 produções), construída a partir de 1954, quando finalizou “La Point-Courte”. Hoje, afirma-se que este é o filme-génese do fluxo de modernização da arte audiovisual na França, que gerou a “Nova Onda” francófona, entre 1958 e 1970. Essas datas são devidamente demarcadas e explicadas em um dos mais belos documentários apresentados na seção Cannes Classic de 2023: “Viva Varda!”. A realização assertiva, milimetricamente estudada e aparada em fontes, de Pierre-Henri Gibert, faz desta longa-metragem de uma hora e sete minutos um micro curso essencial para quem nada sabe da sua personagem, e para quem acredita saber muito e (até) para os que convieram com ela.

Imagens inusitadas de bastidores das andanças da realizadora pelo mundo – incluindo fotos que a sua filha, a figurinista e produtora Rosalie Varda, guardou – fazem do filme um tesouro visual capaz de abrir novas perspetivas para a fase de apogeu da cineasta, no final dos anos 1950. Foi uma época revolucionária, na qual foi casada com o mestre europeu dos musicais, Jacques Demy (1931-1990), realizador de “Les Parapluies de Cherbourg” (1964). Viveu com ele de 1962 até a morte do cineasta, com quem teve um filho, o ator Mathieu Demy, hoje com 50 anos. Antes dele, numa relação com o ator Antoine Bourseiller (1930-2013), teve a já citada, Rosalie, que vem sendo uma chave para a preservação da sua oba. Agora, o belo exercício de memorialismo de Gibert vai auxilia-la na empreitada.

Atento a imagens capazes de expor a afetuosidade da realizadora no seu processo criativo e lutas políticas, “Viva Varda!” revisita as viagens que a cineasta fez pelo mundo durante o lançamento de “Visages, Villages”, produção feita em parceria com o fotógrafo JR, laureada com o troféu L’Oeil d’Or, a Palma de Ouro dos documentários, em Cannes em 2017. Por esse exercício de reflexão da imagem, ela chegou a ser nomeado aos Oscars, em 2018. Reestruturado para ser exibido na TV, como série, “Varda par Agnès”, o seu último filme, lançado na Berlinale um mês antes da sua morte, acompanha uma jornada dela de Paris até Los Angeles e, de lá, pra China, passando em revista 60 anos de imagens produzidas a partir de um instinto autoral.

Gibert reflete sobre a resiliência de Agnès, dialogando com os seus depoimentos , estando entre eles: “Resistir ainda é uma forma poética de se expressar. Em 1968, era o que mais faziamos, entre filmagens e conversas sobre grandes cineasta. Cinema é para ser vivido e essa vivência envolve levar o mundo para os sets, para os diálogos, para as conversas no final dos filmes”, dito por ela no Festival de Marraquexe de 2018. “A função social de um artista é investigar a brutalidade e a beleza, para instigar a emoção e o pensamento. Intervir na sociedade pela expressão poética é parte do processo de criação e faz do cinema uma ferramenta de denúncia e de transcendência”. Essa é a crença a partir da qual Gibert opera, fazendo uma análise mitológica dos feitos de Varda, para entender como ela fintou a moral vigente, usando trechos de filmes de arquivo pouco conhecidos sobre ela. É um trabalho arqueológico iluminador.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
viva-varda-um-curso-compacto-mas-visceral-de-cinema-e-historiaUm trabalho arqueológico iluminador