Entre a consagração de “Oldboy” com o Grande Prémio do Júri de 2004 e o sucesso feito por “The Host“, na Quinzena de 2006, a Coreia do Sul foi coroada por Cannes como a nova embaixada do “cinema de género” no audiovisual, carimbada com um passaporte livre pelas telas do Palais des Festivals com as suas tramas bizarras. Antes, esse lugar foi do Reino Unido da Hammer e da Itália do giallo, com uma breve gestão do cinema japonês de horror (e as iguarias mais complexas de Kyioshi Kurosawa). Só que hoje, só os sul-coreanos se amontoam pelas raias da seção Midnight, onde florescem estranhezas como “Project Silence“, uma tentativa de se criar algo na linha de “Train to Busan” (2016), mas sem a destreza de um Yeon Sang-ho na realização.
Assinado por Kim Tae-Gon, com o desejo de deixar as plateias sem fôlego, “Project Silence” calça-se numa montagem virtuosa, capaz de lembrar a franquia “Fast & Furious” (2001-2023) na sua forma de retratar carros descontrolados, em marcha mais veloz. Mas falta Vin Diesel ou pelo menos uma personagem boa, como vem acontecendo muitas vezes na estética pop deste país pelo que se vê na sua recente presença no catálogo da Netflix ou no programa de eventos como Cannes. “Kill Bookson”, jóia exibida na Berlinale, em fevereiro, é uma (rara) exceção.
O que “Project Silence” dá ao espectador é uma boa premissa e alguns veículos descarrilados. A trama: uma estranha névoa se espalha pela via que leva ao aeroporto de uma metrópole da Coreia do Sul, fazendo com que uma série de passageiros entre em colisão e vejam algo de soturno no gás que os engolfa. Nesse cenário, um pai obstinado tenta proteger a filha do perigo, usando as suas técnicas como motorista e, depois, muita correria. Uma correria em que o público não consegue crer, pois a dramaturgia dissipa-se no ar.



















