Em 1982, no âmbito do 35º Festival de Cinema de Cannes, Wim Wenders filmou no quarto 666 de um hotel de Cannes, onde estava posicionada uma televisão, as respostas de diversos cineastas a questões que colocava: “Qual é o futuro do cinema? O cinema é uma linguagem a perder-se, uma arte que vai morrer?”. Nos cineastas participantes deste dispositivo fílmico para memória futura, encontravamos nomes como os de Jean-Luc Godard, Werner Herzog, Steven Spielberg, Michelangelo Antonioni, R. W. Fassbinder, Mike de Leon e até Paulo Rocha.
Quarenta anos depois, e pegando na edição 2022 do Festival de Cannes como laboratório, a realizadora e argumentista Lubna Playoust recriou o cenário, voltou a um quarto de hotel criteriosamente replicado, e convidou dezenas de cineastas a responderem novamente à questão. O resultado é “Chambre 999”, um filme-instalação que teve a sua estreia em Cannes em 2023.
Ainda com a pandemia COVID-19 a decorrer, como James Gray nos lembra através do uso de uma máscara, além de uma crise ecológica e diversas revoluções tecnológicas iniciadas com o surgimento do digital, nomes como Rebecca Zlotowski, Claire Denis, Olivier Assayas, Nadav Lapid, Asghar Farhadi, Alice Rohrwacher e Wim Wenders, o primeiro a surgir em cena, dão as suas palavras sobre essa questão. Existem respostas de todo o tipo, mas também existe quem não responda, mas dance e faça uma performance, como o russo Kirill Serebrennikov, num dos momentos mais ligeiros e cómicos do filme-instalação. E há ainda quem não se se sinta legitimado ainda para falar do tema, como Justin Chon, que timidamente escapa ao assunto.
Replicado na forma, diferente nas respostas, “Chambre 999” tem como o seu antecessor a arte de levantar muitas questões a partir das respostas dadas pelos cineastas, todas elas criteriosamente montadas por Lubna Playoust para, de alguma forma dar uma progressão de pensamento sobre o tema, sem cair em dispersões, repetições e redundâncias.
Playoust, formada em cinema com Abbas Kiarostami em Cuba e Lucrecia Martel em Barcelona, constrói assim uma nova cápsula do tempo, mas tendo em conta a velocidade das inovações atualmente, as respostas aqui obtidas poderão ter pouca relevância per se, pois amanhã tudo já mudou. Porém, e como documento histórico, que o é, é um objeto de inegável valor e uma produção exemplar, onde não falta mesmo a célebre árvore que surgia também no primeiro filme.




















